domingo, 8 de abril de 2012

Crônica de uma epidemia anunciada

Mosquito da dengue em ação
    Há duas semanas atrás, tivemos a visita da Vigilância Sanitária e Epidemiológica aqui em casa. Mutirão de combate à dengue, aquela correria, muitas viaturas, homens vestidos com trajes de proteção, bombas de fumaça pesticida às costas indo de casa em casa para inspeção e providências para o combate ao foco do mosquito em cada residência. Trabalho bem feito, mas cheio de percalços, sacrifícios pessoais por parte dos envolvidos e principalmente tardio.
   Estamos em plena epidemia de dengue na cidade, com 800 casos registrados numa população de aproximadamente 110 mil pessoas, e uma quantidade enorme de ainda não confirmados, que provavelmente nos lançarão ao patamar de 2 mil casos desde o início do ano. Do ponto de vista das estatísticas já é uma coisa séria, mas quando a gente pensa no sofrimento humano, a coisa fica mais complicada ainda. A dengue tem se apresentado de forma mais agressiva, e a recuperação do processo é lenta. O período em que a doença está agindo sobre o corpo é de um sofrimento muito grande.
   A prefeitura agora deu ordem para que os agentes entrem nas casas fechadas ainda que na marra. As equipes vão a casas que estão fechadas a mais de três meses, sendo alugadas, e ainda dão a última chance de a imobiliária abrir o cadeado e a porta. Caso isso não ocorra, é chamado um chaveiro e a vistoria é feita da mesma forma, com a conta das despesas sendo incorporada ao munícipe proprietário, que já foi informado há algum tempo da necessidade do cuidado e não tomou conhecimento. A multa, no caso, é de R$ 2.000,00. E o que tem de casa repleta de mosquito da dengue é muito grande.
   Louvável atitude essa de entrar de qualquer jeito na casa, frente ao tamanho da epidemia, mas o fato é que medidas preventivas poderiam ter sido tomadas a mais tempo. Agora, é ter energia suficiente para enfrentar o combate e o descaso de alguns proprietários. Como disse no início da matéria, aqui no bairro onde moro - Pedregulho - as equipes de desdobraram para pulverizar todas as casas e vistoriar os possíveis focos de Aedes, mas ainda assim vimos uma vizinha impedir a entrada dos agentes durante duas horas, o que causou revolta por parte de todos os demais, tendo em conta que de nada adiante resolver o problema em dez casas se uma permanece intocada, e com condições de proliferação do mosquito. Ao final, depois de muita discussão e ameaças de multa e denúncia, a dona da casa abriu e em dez minutos a coisa estava resolvida. Essas resistências sempre me lembram a "Revolta da Vacina", episódio marcante da história do Brasil que deveria ser lembrada sempre, para evitar comportamentos obtusos como o dessa senhora. Essa "revolta" ocorreu no início do Século XX, no Rio de Janeiro, quando o então presidente Rodrigues Alves (casualmente nascido em Guaratinguetá) deu pleno poderes ao prefeito Pereira Passos e ao médico. Dr. Oswaldo Cruz, para executar um grande projeto sanitário que freasse o avanço de doenças diversas por falta de saneamento básico e infraestrutura sanitária na cidade. O prefeito botou em ação a operação que ficou conhecida como "bota abaixo", em razão da demolição de velhos prédios e cortiços e Oswaldo Cruz criou as "Brigadas Mata Mosquito" , que invadiam as casas para fazer o serviço de desinfecção e extermínio dos mosquitos transmissores da febre amarela, uma das epidemias da época. Também tratou de liquidar com os ratos da cidade, considerados os principais transmissores da febre bubônica, que ceifava vidas em quantidade. E isso foi só o começo.
   Oswaldo Cruz  conseguiu aprovar um projeto que criava a vacinação obrigatória contra a varíola, e isso desencadeou uma revolta popular que adquiriu proporções enormes, porque as brigadas populares podiam então entrar à força nas residências e vacinar todos que ali estivessem. O resto é história. O episódio foi dramático e emblemático de quanto a ignorância pode ser limitante para a aplicação de medidas profiláticas. Ainda bem que o que vimos aqui foi uma coisa totalmente inversa: a população se revoltou contra aquele que queria coibir o uso das medidas saneadoras, sem qualquer motivo. Já é um enorme avanço.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Ainda sobre trens

Antiga estação ferroviária de Águas da Prata (MG) Serra da Mantiqueira
 
Leio com satisfação que cidades da Serra da Mantiqueira estão trabalhando fortemente para reativar os trens de passageiros entre algumas cidades. Claro, não é o transporte convencional, que traria escoamento de pessoas em proporções altas, mas já é uma iniciativa a ser comemorada, porque atualmente a ligação entre as cidades, via férrea, se dá apenas para atender ao transporte de máquinas e minério, por ali.
   O objetivo principal desse trabalho é incentivar o turismo na Serra da Mantiqueira, usando a atração especial que os trens proporcionam. As prefeituras de São João da Boa Vista, Águas da Prata e Poços de Caldas, no sul de Minas, estão trabalhando fortemente nisso, e buscam os recursos necessários, além do apoio técnico para colocar em prática esse projeto. E pensar que a apenas 30 anos, era o meio de transporte número um da região...
   Secretários das prefeituras da região uniram-se a Associação Mogiana de Preservação Ferroviária (AMPF) para reimplantar o trem turístico da região. A entrada da associação foi fundamental porque eles tem maquinistas e oficina mecânica para dar manutenção aos equipamentos que serão utlizados.
   O trem inicialmente fará o percurso saindo de São João da Boa Vista, passando por Águas da Prata e chegando até uma estação que fica na zona rural de Poços de Caldas. No entanto, já estão sendo verificadas outras possibilidades, como a chegada no centro de Poços e uma extensão até Campinas, o que ampliaria em muito as possibilidades do projeto.
   Vou acompanhar esse projeto de perto, porque é daquelas coisas que, numa iniciativa local e regional, vão se ampliando e podem atingir uma região muito grande pelas interligações.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O arroz preto, branco e vermelho do Vale

   Como prometi ontem, vou falar hoje do meu programa de final de semana, que foi ótimo. Estive neste domingo na III Abertura Oficial da Colheita do Arroz no Vale do Paraíba, evento que aconteceu no bairro Colônia do Piagui, em Guaratinguetá (SP). Embora o evento tenha ocorrido em três dias consecutivos, o domingo teve um caráter especial por ser o momento da gastronomia, que aconteceu no Salão de Festas da Igreja de São João Batista, naquele bairro.
   Programação intensa desde as 09h00, com procissão com imagens carregadas em carro de boi, missa campal, benção de máquinas agrícolas (moderníssimas e quase todas dirigidas por mulheres), banda do Exército de Lorena, enfim, tudo que uma festa do interior tem que ter, e mais um pouco.
Prato bem servido a R$ 12,00 - arroz com carne seca e acompanhamentos
   Ao meio dia, começou o festival gastronômico com a abertura das barracas que serviram arroz com tudo o que você possa imaginar. Costelinha de porco, vaca atolada, carne seca, mandioca frita, linguiça calabreza...uma beleza.  Momento muito especial para aproveitar com a família e principalmente para conhecer uma faceta do Vale do Paraíba que é bem desconhecida, qual seja a da cultura do arroz. Empresas da região e produtores rurais tem investido pesado nessa prática, desenvolvendo variedades interessantes e que estão caindo no gosto de muita gente, como o arroz preto e o arroz vermelho - que atingem altos preços nas grandes metrópoles, recomendados por muitos chefs.
Pote de Arroz Preto Ruzene vendido no festival gastronômico
   Domingo agradável e cheio de encontros com pessoas que de outra forma a gente não vê, na pressa do dia a dia. Valeu a pena o passeio.

Festival lotado ao meio dia. Foi a grande opção para o almoço de domingo.
Muito artesanato também a mostra, tudo feito na Colônia do Piagui
Arroz de todo tipo na feira da festa. Vale a pena conhecer as variedades



domingo, 1 de abril de 2012

Festa do Arroz - Guaratinguetá


   Fui hoje, domingo, a Abertura Oficial da Colheita do Arroz do Vale do Paraíba, um evento muito bonito e saboroso. Amanhã vou postar matéria a respeito, com as fotos dos pratos muito bons, doces, artesanato e tudo o mais que foi apresentado por lá.
   Estou preparando. Até amanhã.

sábado, 31 de março de 2012

Que falta fazem os trens



  Dia 29 de Março, uma data importante para quem gosta de trem. Foi em 1855, nessa data, que nasceu a Estrada de Ferro Dom Pedro II, ferrovia privada, que foi encampada pelo governo imperial em 1865. Em 1889, com a República, passou a ser chamada de Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB).
  Hoje, aqui no Vale do Paraíba, o que se vê é um surto de aproveitamento, por parte das prefeituras, das antigas estações que vão sendo transformadas em centros comunitários, museus da ferrovia e escolas de arte. Projetos são feitos para restauro dos prédios - muito bonitos na sua grade maioria - e nas ações que podem ser úteis às comunidades. No entanto, o que tenho observado quase sempre é aquele movimento intenso inicial e depois... paralisia. E novamente vão as estações sendo consumidas pelo tempo.
  Em Lorena, já tive oportunidade de ver várias peças de teatro, eventos empresariais, reuniões de entidades, etc. Em Guaratinguetá, nada há muito tempo. Pindamonhangaba mantém sua estação aberta até porque serve como base operacional da Estrade de Ferro que liga a cidade a Campos do Jordão, passeio imperdível e difícil de ser feito por conta da pouca estrutura e do interesse enorme que suscita.
 Aparecida deu a largada, mas não foi muito adiante também, o que é uma pena.
  Quem mora no Vale do Paraíba tem que conviver com a situação de, tendo hora marcada e saindo de casa com antecedência, ainda assim se atrasar porque o “trem passou”. A cidade é cortada ao meio pela linha férrea e quando uma composição está chegando as cancelas são abaixadas e você pode ficar entre cinco e vinte minutos esperando, com o carro desligado, que uma composição de duzentos vagões passe carregado de produtos industriais dos mais diversos. É irritante, mas como tudo mais na vida, a gente acaba se acostumando.
  Mais irritante do que esperar passar uma composição industrial é ficar pensando em quanto desperdício é ter uma linha pronta, que liga as duas maiores capitais do país, sem utilização para o transporte de passageiros! Como é burra essa lógica de que ônibus e avião resolvem o problema do tráfego de pessoas em volumes crescentes como temos visto ao longo dos anos. Viajar de trem tem a componente emocional que nenhum outro sistema incorpora. O avião pode ser impressionante pela rapidez - em outros tempos era assim, porque hoje, com o colapso dos aeroportos, o que impressiona é confusão generalizada na partida e na chegada. Ônibus é aquela coisa burocrática e chata. Seis horas sentado e se amarrotando todo, sem posição para nada. Carro, um desgaste só. Já de trem … que espetáculo. Partida na Gare, a noite. Entrada no vagão dormitório e na cabine escolhida. Colchões super-confortáveis, ar condicionado, banheiro (aliás, um mini-banheiro sensacional, com aproveitamento de um espaço mínimo). E tudo rebatível, de maneira que, antes de dormir, você podia sentar num sofá aconchegante e ler, conversar, ver a paisagem que lentamente ia passando pela janela. Sem contar a sensação de começar a  viagem no vagão-restaurante, com direito a jantar “a la carte”, ambiente limpo, tudo organizado. E depois de uma noite de sono formidável, um café da manhã reforçado e pronto, você estava no seu destino arrumado e pronto para um dia de trabalho. Opcionalmente, à noite o retorno em grande estilo sem qualquer sequela de desgaste da viagem.
  Nas histórias que circulam pela região, há um sabor especial naquelas contadas pelos ex-ferroviários, aposentados que ainda lutam para preservar a memória daqueles tempos. Por exemplo, o serviço era tão bem estruturado que havia uma “classe mortuária”, onde eram transportados corpos de pessoas que haviam morrido em uma cidade e seriam enterrados em outras. Contam os mais antigos que o trem passava vagarosamente pelas estações do seu trajeto transportando sua carga fúnebre. Alguns hábitos ficaram arraigados em gerações que, após a missa, corriam para a estação para ver as personalidades que estavam passando por ali, naquele dia. Em Pindamonhangaba, conta-se a história de um dia em que o trem, transportando o então presidente Epitácio Pessoa, iria passar pela estação. Foi montada uma festa enorme, com banda de música e tudo o mais. O povo acorreu todo para lá. O maquinista da composição tinha ordem de passar direto, mas quando viu aquele mar de gente acabou se empolgando … e parou em Pinda. Coisas que só quem viu pode contar.
  Enfim, em seus mais de 150 anos de existência os trilhos da estrada de ferro ainda esperam a volta do movimento nas estações. Se ao invés de “trens-bala” houvesse interesse político em fazer voltar esse sensacional meio de transporte, os custos seriam infinitamente inferiores, e a satisfação muito maior. Reativar os trens seria uma solução maravilhosa, e não perco a esperança de ver isso acontecer.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O maravilhoso urucum

Urucum e suas sementes

   Andando pelas ruas da cidade hoje, minha filha encontrou vários frutos de urucum. Interessante é que ela, tanto quanto eu, nunca tinha tido um destes ao alcance das mãos e ficamos muito curiosos com as características. Sabia que era usado pelos indígenas para colorir o corpo e para pinturas em festividades, mas o legal foi pesquisarmos juntos as maravilhas oferecidas por ele. Fica aí uma foto de um dos frutos que pudemos observar. Essas coisas são ótimas para se fazer com os filhos: pesquisar o mundo ao redor e descobrir suas maravilhas.

Carnaval no Interior: São Luiz do Paraitinga



Os turistas estão prestes a chegar e a cidadezinha, de 10 mil habitantes, se prepara para ver a população quintuplicar. Com alegria e apreensão, São Luiz do Paraitinga aguarda o retorno do Carnaval.


Sede de festas tradicionalmente concorridas, a cidade, à beira do rio Paraitinga, no Vale do Paraíba, viu seu centro histórico literalmente ir por água abaixo. A tragédia, ocorrida em janeiro de 2010, enterrou a folia naquele ano.
Já em 2011, o Carnaval voltou a ser realizado. Para lá foram 75 mil turistas, isso ao longo dos cinco dias do evento. A festa, porém, aconteceu fora do centro histórico.
No próximo dia 17, parte da folia volta ao cenário original. Os blocos tradicionais, como Barbosa e Juca Teles, vão pular, com suas bandas e bonecos gigantes, na praça Oswaldo Cruz e imediações.
Outros eventos simultâneos acontecerão em outros pontos da cidade, na tentativa de levar os turistas mais agitados para fora do centro.
A ideia de descentralizar a festa almeja, acima de tudo, preservar as áreas sensíveis da cidade. Há edifícios que ainda estão em condições estruturais precárias, sustentados por vigas de madeira.
Se São Luiz do Paraitinga deseja, por um lado, mostrar que se recuperou da tragédia, por outro, não quer repetir carnavais como o de 2009, cuja lembrança ainda causa apreensão nos moradores.
"Uma cidade com boa infraestrutura turística tem capacidade para, no máximo, dobrar sua população na alta temporada. Em 2009, porém, recebemos 180 mil turistas [ao longo dos cinco dias], provavelmente seis vezes o número de habitantes simultaneamente", relata o empresário Henrique Guerra.
As recordações daquele ano envolvem lixo nas ruas, falta de energia e filas nos mercados.
Uma das medidas que São Luiz do Paraitinga tomará para evitar a superlotação é o desvio do tráfego. Quando as 5.000 vagas de estacionamento ou zona azul forem preenchidas, as estradas serão fechadas, e veículos não terão como entrar na cidade.

APENAS MARCHINHAS

A preocupação dos habitantes vai além do patrimônio material: nos dias de folia, é proibido ligar aparelhos de som em locais públicos. Nada de axé ou sertanejo, portanto. Só as marchinhas (e apenas as compostas em São Luiz do Paraitinga!) são permitidas no Carnaval.
Um folheto distribuído aos foliões todos os anos, explicando as regras do evento, também expõe a proibição de sprays, garrafas e copos de vidro, e pede que não se urine nas fachadas das casas. Churrasqueiras nas calçadas são passíveis de apreensão.
Cada bloco sugere um tema para a fantasia a ser usada -o bloco do Barbosa, por exemplo, sai vestido de motorista de ônibus. O bloco Encuca a Cuca, quando existia, só permitia a entrada de mascarados vestidos de cores escuras. Seus bonecos eram monstros, e as marchinhas falavam sobre terror. Hoje, o bloco não sai mais: há o receio de que turistas, aproveitando o anonimato, atentem contra a integridade dos foliões.

Folha de São Paulo
Caderno Turismo
09 de fevereiro de 2012