segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Café e as transformações no Vale do Paraíba

A saudosa Maria Fumaça...
   A cafeicultura expandiu-se fortemente no Vale do Paraíba, no princípio como arbustos medicinais e, pouco tempo depois, como a maior fonte de riqueza da região; "o maior fenômeno agrícola do século". Avançou pelo Vale do Paraíba, atingindo em meados do século XIX a província de São Paulo.
   Surgiram os Barões do Café e com eles grandes transformações na sociedade. As casas residenciais saíram das fazendas para as cidades. Aprimorou-se a decoração - cópia da francesa; vieram os teatros, os saraus, as requintadas festas. Mudaram-se os costumes, refinou-se a educação.
   Foram também os Barões que trouxeram com seus investimentos a estrada de ferro. Esta aproximou Vale e Corte, mas também trouxe a decadência dos portos no litoral com a inauguração do transporte ferroviário, que ligou os principais municípios paulistas ao porto de Santos, entre 1867 e 1872, e a estagnação de tantas cidades do Vale, tendo em vista sua distância dos trilhos.
   As mulas ainda se faziam necessárias tanto dentro das grandes fazendas, no trabalho árduo dos colonos, como para o transporte de cargas até as ferrovias, que por vezes eram muito distantes.
   A queda do café iniciou-se e com ela alguns povoados extinguiram-se. Era o final do Século XIX e início do Século XX.
   As décadas de 20 e 30 do novo século trouxeram consigo o crescente desenvolvimento de grandes centros como  a capital de São Paulo, Ribeirão Preto, entre outras cidades interioranas, tendo como pano de fundo o avanço e a expansão das ferrovias e das estradas. Entretanto, ainda em 1940, estados como Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso ainda dependiam das mulas para fazer girar sua economia.
   O tropeirismo dava sinais de declínio e ia sendo absorvido, pouco a pouco, por outras formas de transporte, primeiramente com o advento dos trens e a melhoria das condições de navegação e, depois nos anos 50, com a chegada dos caminhões e tratores.
   Chegam as ferrovias, chegam os automóveis. Vão-se os muares e os tropeiros. O legado há de se perpetuar através dos séculos. As lembranças sempre estarão presentes, principalmente quando a "prosa" estiver boa e o café saboroso.

(extraído do livro " Viagens dos Tropeiros Entre Serras", de Ocílio Ferraz, Editora Antonio Bellini). Sob autorização do autor.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Rapadura: a história doce

Rapadura (foto do site viagemesabor.com.br)

Seu ponto está entre o melado e o açúcar mascavo. No meio do caminho, surge a rapadura. Açucarada e densa, é o sabor de um Brasil que foi, que é e que será sempre delicioso. Por vários motivos, a rapadura vem sendo preterida por goiabadas e doces de leite e deixou de ser produzida por muitos engenhos que passaram a investir na cachaça. O resgate da rapadura está sendo feito a base de inovação, por pessoas que mais do que garantir a existência, querem poder apresentar uma opção alimentar com sabores diferentes.
   Mas o que a rapadura tem a ver com essa saga interiorana? Tudo. Aproveitei uma reportagem do ESTADO DE SÃO PAULO, de 18 de agosto, para falar da rapadura que é feita aqui perto, em Caçapava.
Mas o que é a rapadura? É o melaço sólido, resultado de cozimento prolongado do calda de cana em fogo altíssimo. E só. Quanto mais doce e limpa for a cana de açúcar, melhor será a rapadura. Grande parte da qualidade do doce, entretanto, depende da habilidade dos “caldeireiros” e “tacheiros”. São eles que, durante horas, pacientemente, retiram as impurezas do caldo durante o processo de fervura no tacho. Se não houver grande habilidade e extrema atenção, em um minuto a mais o caldo incorpora as sujeiras da cana, destruindo a qualidade da rapadura. Outro minuto além da conta e lá vai o ponto da rapadura, e ela vira açúcar mascavo.
Rapadura, nasceu na verdade como “raspadura” e o termo foi se modificando ao longo do tempo. O trabalho braçal é enorme e a atenção tem que ser total, porque como se viu, numa pequena porção de tempo tudo desanda.  No Brasil, os primeiros engenhos produtores de rapadura surgiram no século 17, no Nordeste. As moendas eram movimentadas por animais e a cana usada era a “crioula”. Hoje, há muitas variedades, mas o importante é escolher canas “adultas”, porque geralmente contêm mais açúcar.
No Nordeste, o doce tem presença forte até hoje (está na merenda escolar e nas prateleiras de secos e molhados). Pernambuco e Ceará estão entre os principais produtores do país, mas curiosamente, o maior de todos é Minas - em 2006, o Estado produziu mais de 7 mil toneladas.
Em Paraibuna (SP) existe um sitiante que trabalha nos moldes tradicionais, e por isso reproduzo o que foi escrito na coluna PALADAR, do Estadão, a respeito desse trabalho.

Em um sítio de Paraibuna, que poderia estar nas histórias de José Lins do Rego, Jotinha ressuscitou a tradição de fazer a rapadura à moda antiga. Montou um pequeno engenho no Sítio J.J (tel. 12 - 9723 6017) que virou referência no Vale do Paraíba por usar equipamentos antigos de madeira como gamelão (recipiente que recebe o caldo de cana após a ação do fogo). A matéria prima, a cana de açúcar, vem do próprio quintal. Com a ajuda de Dito, extrai a garapa em uma moenda e a cozinha no fogão a lenha, em um tacho de cobre com 1,16m de diâmetro e 16cm de profundidade. Além de rapadura, faz melado, açúcar mascavo e cachaça.

Para terminar, algumas dicas de como escolher a rapadura:
1) A cor deve oscilar entre o bege-claro e o marrom-escuro, mas também podem ser esverdeadas. À exceção de canas que dão caldos muito escuros, se a rapadura for pura e quase preta é sinal que carrega impurezas da cana (incorporadas durante a fervura) ou que ficou tempo demais no fogo (nesse caso, terá gosto de queimado). As mais claras são as mais valorizadas.
2) Dureza não é defeito, mas o ideal é que se possa cortá-la com uma faca (sem quebrá-la). As mais úmidas duram menos.
3) Evite as enroladas em palha (podem amargar o doce). Já a folha de caeté é neutra.
4) Passe a unha na rapadura. Se isso aranhá-la é bom sinal: tem consistência.

De qualquer forma, rapadura é bom demais, e a média nacional pelo pedaço é de R$ 3,00. Barato, nutritivo e saboroso o Brasil deve muito a esse doce. Mais adiante vamos ver a importância da rapadura como alimento nas grandes jornadas pelos sertões desse país.

*  * *

domingo, 7 de agosto de 2011

Lançamento do instituto

   Venho falando de Tropeiros e Tropeirismo há algum tempo, e o assunto é realmente cativante. Embora soubesse muito pouco a respeito, na forma de fiapos de leituras, comentários, conversas, fui ficando interessado. Fui almoçar num restaurante tipicamente tropeiro existente aqui no Vale do Paraíba, próximo ao pé da Serra da Bocaína, e fiquei realmente impressionado com a riqueza do tema e tive a oportunidade de conhecer um dos grandes especialistas do mesmo, o Ocílio Ferraz, que dedica-se a divulgação da cultura tropeira e caipira há muitos anos.
   Na sua jornada ao longo de seus 73 anos de estrada, escreveu livros, foi homem da área de cultura e turismo do governo do Estado, faz parte de organizações gastronômicas e tem negócios em Caçapava, Lorena e Silveiras, de onde não sai por ser sua terra mater.
   Nessas conversas, fui informado da vontade dele em consolidar sua vida e obra numa entidade que desse continuação a tudo isso para que não houvesse perda do muito que foi produzido e que permitisse a continuidade da pesquisa, do ensino, da produção cultural e intelectual, etc. Essas conversas só podem acontecer mesmo para quem vive o dia a dia do interior, porque são estudos profundos de personalidade, de identificação com o projeto, com as idéias, com as pessoas.
   Dessa conversa saiu a idéia de apoiar o projeto de maneira profissional, e como consultor, montei algumas ações para lançarmos o conceito - inicialmente na região, posteriormente em âmbitos crescentemente mais amplos.
   Nessa quinta feira, dia 04 de agosto, fizemos a primeira ação, que foi o lançamento social do INSTITUTO DE TROPEIRISMO OCÍLIO FERRAZ, com a presença de vários multiplicadores, empresários, formadores de opinião, gente de mídia, amigos e parentes. Foi um momento especial, porque cristalizou a idéia e deu a dimensão do valor do projeto. E criou o sentido de responsabilidade de execução, agora que o plano está no coração e mentes de muitos, alguns deles que irão compor um Conselho Consultivo.
   Abaixo, algumas das fotos tiradas na Fazenda do Tropeiro, em Silveiras (SP), agora sede do Instituto de Tropeirismo. Foi a noite mais fria do ano até agora, e pegamos temperatura próxima aos 2 o.C, mas o jantar foi delicioso e a companhia de todos foi espetacular e aqueceu os corações de todos os presentes.

Heleninha e Matilde com muito frio, mas animadas

Hora da Viola no canto mais quente da casa
Minha palestra de apresentação sobre o Instituto
Fala final do Ocílio Ferraz, fechando o encontro
Detalhe do jantar sobre o fogão de lenha para ficar aquecido

Ópera no Interior

   Morar no interior não é ficar isolado da Cultura. Claro que a pujança de espetáculos é infinitamente inferior a oferecida nos grandes centros, mas de vez em quando somos brindados por aqui com algumas peças, inclusive excelentes espetáculos como essa de "Carmen".
   Aconteceu no sábado e foi um tremendo sucesso. Mas numa cidade como Guaratinguetá, distante apenas 180 km da cidade de São Paulo, as coisas ficam bem fáceis quando se quer assistir qualquer lançamento. Duas horas de viagem de ida e outras tantas de volta, e você ainda pode jantar em um bom restaurante paulistano.
   E isso é uma tranquilidade frente a vantagem de se ter teatros por perto mas também tantos problemas que são apresentados para quem mora na capital.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

As tropas do Café


  Como vimos, o tropeiro foi de fundamental importância para o Ciclo do Café, tanto quanto o café foi importante para manter o tropeirismo em funcionamento, com o declínio do Ciclo do Ouro. É pela Serra da Mantiqueira que o tropeiro levava o café para as Minas Gerais, seguindo os muitos caminhos que se abriam. Pela Serra do Mar e da Bocaina, seguia para o litoral fazendo que a riqueza do novo ciclo abastecesse cidades, chegasse aos portos do litoral e pudesse seguir para Portugal. De Cunha para Paraty, de Taubaté a Ubatuba, de São José do Barreiro a Mambucaba, de São José dos Campos para São Sebastião.
   As principais rotas usadas para ligar São Paulo e Minas ao Rio de Janeiro eram o caminho velho: Minas Gerais - Guaratinguetá - Paraty, e o caminho novo: Lorena - Fazenda Santa Cruz. As cidades do Vale do Paraíba despontaram. Silveiras, Cunha, São José do Barreiro, Areias, Lagoinha, São Luiz do Paraitinga, Bananal, Lorena, Roseira, Aparecida, Guaratinguetá, Taubaté, Jacareí, Queluz.
   O tropeiro, velho conhecedor dos caminhos e escolado nas trilhas das serras fazia escoar a nova produção econômica do País - o café. Mas não só isso: levava-se também batata, trazia-se madeira, suínos, bovinos, feijão, milho, sal, arroz ...
   Levavam sua cultura por onde quer que passassem; aprendiam e ensinavam. Geravam riquezas, difundiam hábitos e costumes. Faziam florescer cidades a partir de ranchos de tropas.
   Os caminhos estavam abertos pelo ciclo do ouro, as tropas experientes e os escravos, à disposição. A cafeicultura expandiu-se, no princípio como arbustos medicinais e, pouco tempo depois, como a maior fonte de riquezas da região; "o maior fenômeno agrícola do século". Avançou pelo Vale do Paraíba, atingindo em meados do século XIX a província de São Paulo.
   Surgiram os Barões do Café e com eles grandes transformações na sociedade. As casas residenciais saíram das fazendas para as cidades. Aprimorou-se a decoração - cópia da francesa; vieram os teatros, os saraus, as requintadas festas. Mudaram-se os costumes, refinou-se a educação.
   Vai daí ...

(extraído do livro " Viagens dos Tropeiros Entre Serras", de Ocílio Ferraz, Editora Antonio Bellini)