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sábado, 2 de julho de 2011

Onde se chega...

 


   É curioso falar disso, mas importantíssimo, já que estamos falando em "viver no interior", mas o pecado original de quem chega é o olhar sobre onde chegou. Dificílima a avaliação até porque não sabemos o que vamos avaliar nem sequer para que avaliar, tendo em conta que estamos vindo de um grande centro, que em princípio, congrega tudo o que há de valor nas relações humanas - tanto para o bem quanto para o mal.
   Lembro-me quando vim para o Vale do Paraíba há dez anos atrás, para um trabalho de consultoria, chegando com a carga de estresse natural de quem está fazendo duzentas coisas ao mesmo tempo, com preocupações diversas e sem capacidade de perceber nuances sutis. Tudo o que eu fazia era atuar, formando relacionamentos sem grande interesse direto. Vim várias vezes a Guaratinguetá, e em nenhuma delas apreciei o que realmente havia aqui.  Focado no trabalho, com o tempo contado e sem nenhum vínculo emocional maior, entrava e saia da cidade como o faria de qualquer outra cidade do mundo.
   Com o passar do tempo, apenas algumas coisas se tornavam evidentes, mas certamente não as positivas, porque as falhas afloram sempre de maneira muito mais intensa do que as qualidades (salvo quando essas são temáticas ou abrangem alguma coisa do espectro de valor do observador). Notei que era uma cidade limpa, sim. E que havia uma sensação de segurança bem evidente. Notei que a infraestrutura, em 1999/2000 era precária. Sinalização das ruas bastante falha, inclusive para indicar o caminho para a Via Dutra, ponto de referência maior para quem vive ao lado dessa enorme avenida, que liga os dois grandes pólos propulsores do país. Ficou claro que o sistema de transporte era bastante ruim - embora melhor do que em outras cidades - e que o uso da bicicleta era bastante disseminado, embora só houvesse uma ciclovia, em cima de uma ponte, com não mais de 30 metros de extensão... o que provavelmente a tornava na menor ciclovia do mundo.
   Fui vítima de um hábito danado naquela época, da parte dos restaurantes. Embora com indústrias de porte e uma população que já superava os 100 mil habitantes, comer fora da hora do almoço era uma verdadeira maratona. Por força do trabalho, em várias ocasiões entrei por essa sacrossanta hora em reuniões que se estendiam até as 14h00. Saindo da reunião, a idéia de ir a um restaurante soava totalmente razoável, mas isso esbarrava num costume local que fechava todos eles depois do "horário de almoço", porque não haviam clientes. Ou os tradicionais clientes já tinham almoçado, ou um enorme número de pessoas tinha ido almoçar em casa e estaria voltando ao seu local de trabalho naquele horário. Isso era particularmente irritante, porque a alternativa era sair da cidade e ir até uma churrascaria de beira de estrada entre Guaratinguetá e Lorena para fazer uma refeição decente. Ou então ir até uma pastelaria para tentar substituir o arroz com feijão por alguns pastéis enormes mas muito saborosos que até hoje existem por aqui.
   Ora, tudo isso não passava de reclamação de visitante e por algum tempo, não tive esperança de ver as coisas mudarem, mas mudaram. Para muito melhor. No entanto, naquela época, fiquei muito centrado nessas circunstâncias que me atingiam diretamente, até porque só me atingiam por aqui. Em qualquer um dos muitos lugares onde estaria ao sair de Guaratinguetá, nada disso aconteceria. Perdi um bom tempo sem atentar às boas coisas locais, e por isso recomendo enfaticamente que você, ao ir para uma cidade do interior com o objetivo de conhece-la realmente, faça uso de todos os seus canais de percepção para entender a dinâmica da mesma, e não só usar seus filtros para fazer diagnóstico de realidade. Isso vai ajuda-lo tremendamente a não fazer juízo de valor errado, que certamente o levará a decisões equivocadas.
   Mas vamos adiante nessa jornada de ingresso na "atmosfera local" de uma cidade do interior, com todo o espectro de possibilidades que se apresentam a quem chega.