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sábado, 14 de janeiro de 2012

Uma caixa de cachorros

   Sexta feira, por volta das 13h00. Tinha acabado de almoçar em casa, e como faço sempre, dei uma saída para espairecer. Geralmente, faço isso no pequeno jardim, em frente de casa, de onde posso ver a rua. Vi pelo canto dos olhos um movimento inusitado, e foquei na área externa para entender aquilo. Um pequeno cachorro, filhote de um mês no máximo, estava no meio da rua... sózinho! Seguindo um homem que por sua vez olhava para trás e acelerava o passo. Quando olhei embaixo de um pequeno arbusto fronteiro ao muro, vi uma caixa de papelão com alguma coisa se mexendo dentro.
   A primeira reação foi de abrir o portão e ver o que estava acontecendo, e nesse meio tempo o cachorro que estava no meio da rua voltou para a caixa de papelão. Olhando para dentro da mesma, fiquei chateado: haviam abandonado três filhotes na porta da minha casa. Não havia mais ninguém na rua e a primeira providência foi recolher os bichos para evitar uma tragédia maior. Olhando melhor, os três estavam sujos, quase sem reação provavelmente por inanição e com carrapatos andando pelo pelo. Para quem gosta de animais, como eu, isso é uma pancada no peito. Dói ver o estado a que animais podem ser relegados.
   Providência seguinte: não podendo ficar com os animais, comecei a recorrer aos órgãos públicos que poderiam atender numa situação como essa, e descobri que não há essa hipótese. O Departamento de Zoonoses, não recebe filhotes. Segundo o tratador que me atendeu, abriga apenas animais "problemáticos", ou seja, cachorros que estejam atacando pessoas na rua, com indícios de raiva, ou outros problemas denunciados pela população. O Corpo de Bombeiros não tem idéia sobre o que fazer. A Ouvidoria da cidade, atendendo com muita cortesia, disse que não tem a menor idéia quanto ao que fazer. Ninguém sabe nem alternativas para o problema. Cachorros abandonados, de qualquer idade, não existem para o poder público.
   Passei para entidades da sociedade civil, mas também observei que não ia ser possível encontrar alguém que ajudasse. Existe uma ONG que não tem sede, e que trabalha com campanhas de castração de animais, mas não tem abrigo e nem sede. Veterinários, mesmo aqueles que são mais dedicados, também não tem qualquer informação concreta sobre o que fazer. Indicam alternativas em um mercado que está surgindo, ou seja, o de pessoas que se comprometem a deixar o animal para adoção, cobrando uma taxa para vacinar e preparar o bicho para exposição. Uma boa veterinária da cidade me informou que mesmo assim, ficasse atento porque existem pessoas que colocam inclusive anúncio em jornais locais oferecendo esse serviço a R$ 20,00 por animal, sendo que depois que a pessoa vai embora, sacrificam todos, enterram e informam, quando questionados, que foram adotados. Um mergulho nesse mundo revela um problema sério nas cidades do interior - e mesmo nas grandes cidades. É um problema praticamente desconhecido da grande maioria de nós.
   Para resumir a maratona enfrentada, consegui saber que o dono de uma casa de ração onde sempre comprei materiais para minha cadela, que morreu recentemente, faz um tipo de trabalho que me pareceu adequado. Realmente ele analisa os animais, cobra R$ 15,00 por cada um que é deixado para ser oferecido para adoção, lava, vermifuga, vacina contra sinomose e raiva e expõe na frente da loja, em gaiolas próprias. Como os bichinhos que resgatei da rua estavam muito mal, cobrou R$ 20,00 por cada um. E quando o pessoal aqui de casa foi ve-los hoje, para saber se tudo estava bem, encontrou-os bem melhor, mais fortinhos, hidratados e alimentados. Ou seja, tudo bem até aqui. E que assim seja daqui para frente, com o melhor para eles.
   Enfim, uma coisa que a gente não entende como sendo um problema, é algo terrivelmente mal resolvido. Não há uma organização pública ou civil que faça frente a esse assunto. Soube de vários casos de pessoas que se dedicam ao cuidado de animais abandonados, todos passando grandes dificuldades por conta da falta de recursos, de apoio, de interesse ou colaboração de quem quer que seja. Algumas desistem depois de um longo tempo. Outros sucumbem a falta de recursos. Mas no final das contas, embora a gente saiba que existem muitos, como nós, falta articulação. Fiquei muito mobilizado com tudo isso e estou começando a me mexer no sentido de saber mais como ajudar a resolver essa questão. É uma condição vital para mim entender e ajudar. Volto ao assunto em outro post, quando tiver conhecido melhor o assunto.

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