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terça-feira, 20 de setembro de 2011

A tropa

O tropeiro
Tropeiro, do nome tropero, originário da Espanha.


Corajosos, desbravadores. Enfrentaram feras, climas hostis, doenças, as árduas trilhas longas, misteriosas e perigosas, o distanciamento das famílias, o aconchego do lar, a total falta de conforto para transportar mercadorias e servir de mensageiros da população, em sua bagagem, levavam e traziam recados, cartas, bilhetes, além de tecidos e aviamentos.
Foram o pivô da integração nacional - cultural e territorial - e fator básico da economia brasileira. A estrutura da tropa xucra era constituída de 250 a 500 animais. Conforme o desenvolvimento de cada região, ocorria a divisão em lotes de 7 a 24 animais já domados.
Uma hierarquia original ocorria dentro das tropas, que acabava por diferenciar, social e economicamente, os grandes homens que a compunham.
Na melhor besta, trajando botas, calça, camisa e chapéu ia o arreador, a quem a tropa pertencia. Mantinha a ordem e era responsável pelas cargas transportadas. Sempre levava um capataz para ajudá-lo na administração da tropa - nas compras e vendas de animais, formação da comitiva e na contratação de ajudantes, enfim, participava das decisões.
Conduzindo a tropa, ia o tocador, responsável por instigar os animais quando empacados ou amontoados, evitando que se pisoteassem, e reuni-los quando dispersavam. Nas paradas também era sua função carregar e descarregar os animais além de ajudar em todas as tarefas. Sempre descalço e a pé, levava o guarda-peito a lhe cobrir os joelhos e na cintura o tapa-cara.
Encabeçando a caravana, ou “madrinhando a tropa”, o madrinheiro, também chamado de guiador - menino entre oito e doze anos, geralmente filho de tropeiro - seguia montando a égua na frente do grupo, a madrinheira. Ela ia toda enfeitada, com um sino no pescoço cujo som era facilmente reconhecido pelo madrinheiro e pela tropa. Descalço, calça, camisa, guarda peito e chapéu de palha, lá ia o guiador. Ser madrinheiro foi o começo de todos os tropeiros. Seguindo criança ainda o exemplo do pai, mais velho e experiente, chegaria a ser tocador ou , quem sabe, arreador.
A primeira mula da tropa era o orgulho do tropeiro: era besta dianteira, toda enfeitada com seus cincerros - conjunto de 7 a 11 sinos rústicos pendurados no pescoço. Orientava e não se deixava ultrapassar pelas outras mulas, dando coices e mordendo, se necessário fosse.
Depois, uma a uma, as demais bestas de carga. E ao final vinha a mula culatreira, com andar mais manso e sossegado, mais idosa e sem a altivez da madrinheira.

A Viagem

De madrugada, o madrinheiro acendia o fogo com a trempe para o café e o feijão. Enquanto isso recolhiam a madrinheira e as demais bestas, preparando a tropa para o seu destino, traçado na cadência dos sinos e dos cincerros.
Pelas oito horas da manhã, já em local pré-escolhido, era tempo de apear para o almoço. Do culatreiro, de dentro dos jacás, tiravam-se os alimentos - feijão, carne salgada, açúcar mascavo ou rapadura, sal e farinha. Nas cangalhas, ficavam todos os “trens de cozinha”, caldeirão para o feijão, panela de ferro para o arroz e o torresmo, as canequinhas, os pratos e a cuia de meia cabaça. O madrinheiro menino zelava pelo fogo e cuidava do almoço, enquanto os demais se encarregavam da tropa. Após a refeição, também era tarefa do madrinheiro lavar e guardar todas as vasilhas de volta nos jacás. Esta parada era rápida, quase tudo preparado de madrugada, na hora do café. Ao final da manhã, em torno do meio dia, um descanso para esperar o sol baixar e então, nova caminhada com destino ao último pouso. Incansáveis, os tropeiros perseguiam seu destino vencendo caminhos, atravessando rios, enfrentando chuvas e tempestades.
Quando deparavam com algum enorme lamaçal, o ligal que protegia as cargas da chuva e era usado para dormir, virava tapete de tropa -  e era estendido para a passagem das bestas.Quando cruzavam por esses caminhos com outras tropas, ajudavam-se uns aos outros no que fosse preciso e a preferência era daquela que estivesse subindo.
Depois de um dia de jornada, caminhando aproximadamente três léguas (ou dezoito quilômetros), o descanso no pouso era refúgio bem-vindo. Estavam protegidos nos ranchos, construções rústicas cobertas com sapés ou telhas e sem paredes. Abrigavam várias tropas e os responsáveis pela manutenção eram chamados de rancheiros.
Fora da cobertura, haviam várias estacas para que os burros pudessem ser amarrados, dois a dois, e então descarregados. Era preciso ter cuidado com as mercadorias - mais ou menos 80 quilos por animal - para não misturar, pois pertenciam a diferentes donos. Os animais eram então alimentados, em média um quilo de milho por mula, e depois soltos para pastar e passar a noite.
Em ocasiões em que a tropa ficava impedida de prosseguir, ocorriam reuniões, festas, músicas, catira, os causos, o jogo de truco; caso contrário, a exaustão prevalecia e sobre o ligal vinham o descanso e o sono merecidos.

* * *
Ainda que possa parecer que o tema é recorrente nesse blog, confesso aos amigos que estou muito impressionado com o tema e principalmente com a falta de elementos a respeito. Por isso, ao me deparar com o livro "Viagens de Tropeiros entre as Serras" - São Paulo, Caminhos da Colonização, fiquei bastante triste em saber que foi editado em condições especiais, com tiragem limitada e totalmente esgotado. Nessa publicação de Ocílio José Azevedo Ferraz, todo o panorama da época de ouro do tropeirismo é descortinado de forma simples, poética mas com forte documentação de apoio. Chegamos a conversar sobre a possibilidade da criação de um Instituto de Tropeirismo, mas o projeto embora lançado, não seguiu em frente. Estou digitando então várias partes desse precioso livro, tendo em conta que muita gente gostou do assunto e não terá oportunidade de conhecer a obra e seu conteúdo precioso. Em mais um ou dois artigos, esgoto o tema, mas deixo uma possibilidade aberta de ampliação do conhecimento para muitos que tenham interesse. Espero que gostem, e fica aqui uma homenagem ao Ocílio Ferraz, pela ousadia que teve em transformar a informação em poesia.
Nelson Marques

terça-feira, 2 de agosto de 2011

As tropas do Café


  Como vimos, o tropeiro foi de fundamental importância para o Ciclo do Café, tanto quanto o café foi importante para manter o tropeirismo em funcionamento, com o declínio do Ciclo do Ouro. É pela Serra da Mantiqueira que o tropeiro levava o café para as Minas Gerais, seguindo os muitos caminhos que se abriam. Pela Serra do Mar e da Bocaina, seguia para o litoral fazendo que a riqueza do novo ciclo abastecesse cidades, chegasse aos portos do litoral e pudesse seguir para Portugal. De Cunha para Paraty, de Taubaté a Ubatuba, de São José do Barreiro a Mambucaba, de São José dos Campos para São Sebastião.
   As principais rotas usadas para ligar São Paulo e Minas ao Rio de Janeiro eram o caminho velho: Minas Gerais - Guaratinguetá - Paraty, e o caminho novo: Lorena - Fazenda Santa Cruz. As cidades do Vale do Paraíba despontaram. Silveiras, Cunha, São José do Barreiro, Areias, Lagoinha, São Luiz do Paraitinga, Bananal, Lorena, Roseira, Aparecida, Guaratinguetá, Taubaté, Jacareí, Queluz.
   O tropeiro, velho conhecedor dos caminhos e escolado nas trilhas das serras fazia escoar a nova produção econômica do País - o café. Mas não só isso: levava-se também batata, trazia-se madeira, suínos, bovinos, feijão, milho, sal, arroz ...
   Levavam sua cultura por onde quer que passassem; aprendiam e ensinavam. Geravam riquezas, difundiam hábitos e costumes. Faziam florescer cidades a partir de ranchos de tropas.
   Os caminhos estavam abertos pelo ciclo do ouro, as tropas experientes e os escravos, à disposição. A cafeicultura expandiu-se, no princípio como arbustos medicinais e, pouco tempo depois, como a maior fonte de riquezas da região; "o maior fenômeno agrícola do século". Avançou pelo Vale do Paraíba, atingindo em meados do século XIX a província de São Paulo.
   Surgiram os Barões do Café e com eles grandes transformações na sociedade. As casas residenciais saíram das fazendas para as cidades. Aprimorou-se a decoração - cópia da francesa; vieram os teatros, os saraus, as requintadas festas. Mudaram-se os costumes, refinou-se a educação.
   Vai daí ...

(extraído do livro " Viagens dos Tropeiros Entre Serras", de Ocílio Ferraz, Editora Antonio Bellini)