A Mulher
A casa dos tropeiros era modesta, chão de terra batida e paredes ora de barro ou madeira, ora de adobe - tijolo artesanal feito de capim, água, terra e areia, ou ainda de pau-a-pique.
Em virtude da prolongada ausência dos maridos e de alguns filhos, as mulheres cuidavam da casa, zelavam pela própria sobrevivência e de seus filhos, com muita determinação.
O espaço dos homens estava fora da casa, de onde trazia os meios de manutenção da família; a mulher, por sua vez, considerava como sendo o seu espaço o interior da casa - onde cozinhava, descansava, cozia e educava seus filhos - e, quando muito, à sua volta, onde estavam os animais domésticos e as plantações, que eram o real meio de subsistência.
Retornando o homem da jornada, reuniam-se os empregados que o acompanharam para os acertos. As mulheres da casa não apareciam, ficavam na alcova - um quarto sem janelas, protegidas pela única porta que servia de ligação para o resto da casa.
Vestimentas
O poncho, capa ou a pala eram as vestimentas típicas do tropeiro arreador, nas andanças do sul, nas madrugadas e nas serras. Tão longos que eram, cobriam as ancas do animal em que estava montado o tropeiro. Protegiam da chuva e, às vezes serviam de barraca quando vinha o sono e até ocultavam as armas - clavina, garrucha, lapeana - que carregavam.
O chapéu, grande de feltro e abas largas, camisa, ceroula e calça folgada. Na cintura uma faixa de pano colorida ou guaiaca feita de couro para carregar miudezas agulha, canivete e por fim, o calçado - detalhe que os diferenciava e demonstrava o poder sobre os demais homens da tropa. Em uma tropa, os camaradas tropeiros estavam sempre descalços e tanto as camisas quanto as calças eram folgadas. Usavam um modesto chapéu de palha e um cajado que servia de apoio na íngreme caminhada.
Profissões
O elenco de atividades ligadas ao tropeirismo é enorme. Profissões foram naturalmente se desstacando em torno das atividades do setor. Tal qual os tropeiros, em geral, eram profissões que passavam de geração em geração, de pai para filho.
a) O Rancheiro
Era encarregado da manutenção do rancho onde a tropa pernoitava. Cobrava, na região sudeste onde as tropas já estavam domadas, por cangalha e oferecia abrigo aos homens em uma estrutura de sapé e aos animais um pasto exclusiva para pernoitar e pequenos pilares para que pudessem ficar amarrados para serem carregados e descarregados.
b) O Cangalheiro
Artesã extremamente habilidoso, era o responsável pelas cangalhas que deveriam ser leves, contudo capazes de resistir ao tranco das mulas e ao peso da mercadoria durante todo o percurso. A madeira utilizada para a confecção das cangalhas e dos ganchos que a sustentavam chamava-se açoita-cavalo. Os ganchos eram produzidos ainda na floresta e depois aperfeiçoados nos ranchos. Caso uma cangalha ou gancho tivesse pouca duração, o artífice estava condenado e a notícia do desastre “corria” mais do que a ropa. Mais rápido do que noticia ruim.
c) O Seleiro
Encarregado dos arreamentos dos animais e do couro para as cangalhas.
d) O Trançador
Trançava tiras de couro e os pelos das crinas do pescoço e cauda dos animais, as serdas - cordas, cabresto e rédeas.
e) O Cesteiro ou Jacazeiro
Confeccionava jacás de diversos tamanhos, balaios, cestas em formatos especiais, muitas vezes encomendados, dependendo do que seria necessário transportar - galinhas, porcos, queijos, crianças.
f) O Funileiro
Era responsável por uma fama de utensílios que os tropeiros carregavam a começar pelos cincerros da madrinheira - de extrema importância e beleza, feito de latão ou cobre batido. De suas oficinas saíam ítens básicos para a cozinha - de metal, cobre, latão ou folha de flandres - como panelas, as medidas de quarta, as canecas de quarto de litro para água, as canequinhas para café e cachaça e a ciculateira.
Por suas habilidosas mãos eram ainda executadas as lamparinas de querosene nos mais variados formatos, os candeeiros e os tachos, enormes, nunca levados nas jornadas, mas que eram indispensáveis nas casas dos tropeiros, nas torras de farinha, na produção do açúcar preto, rapadura e em toda a doçaria da época.
g) O Ferreiro
Feitas uma a uma, de ferro batido, as ferraduras eram encomendadas ao ferreiro, para o proteger o casco dos animais. Se elas, os animais acabavam tendo defeitos enormes em suas passadas, o que reduzia sua capacidade de trabalho. De quatro tipos diferentes - inglesa, mineira ou de rompão, de adorno e a de chapinha - chegavam a pesar 400 gramas e tinham de 6 a 8 furos. As de sete furos eram muito raras e muito procuradas porque davam sorte! Sua durabilidade variava em função dos trechos que as tropas percorriam. Em ruas calçadas, duravam um tempo mínimo, às vezes quinze dias, no máximo um mês. Nas estradas de terra muitas vezes eram dispensáveis; caso contrário, sua durabilidade chegava até mesmo a 90 dias.
h) O Ferrador
No trecho da trilha do Ouro e do Café, havia os fantásticos catadores de ferraduras e o ferrador as comprava, reciclando-as. Retirava os cravos, a ferradura velha, aparava os cascos e colocava a nova. Se o animal era muito bravo, contava com um ajudante para levantar suas patas, colocar o pito na mula que, de tanto dor, não oferecia mais resistência.
O ferrador muitas vezes recorria a São bravo, rezando sua oração, dando três voltas em torno do burro, solicitando bênçãos para que “ele não morresse de raiva por ter sido ferrado”.

