terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Transporte no interior

Ainda não está acontecendo, mas ...

   Uma coisa que eu percebi claramente, desde que vim morar no interior foi que, sem um meio de transporte, você está numa situação de risco. O transporte coletivo, serviço essencial, é uma das coisas mais problemáticas para quem mora em locais em que as distâncias são grandes e a logística é péssima. Os acordos entre empresas de ônibus e prefeituras nunca atendem a totalidade dos passageiros e os conflitos de interesse não são resolvidos levando em consideração as necessidades dos usuários, mas sim a lucratividade do sistema.
   Varia muito de município para município, mas a média de avaliação é baixa. Durante um bom tempo, fiquei sem carro em Guaratinguetá, e paguei um preço alto por isso, seja em termos de possibilidade de atender clientes, seja pelo custo financeiro, seja pelos riscos inerentes ao fato de que, em determinado momento, você não vai para lugar algum, mesmo que esteja disposto a pagar um táxi - param de atender a partir das 02h00 da madrugada...
   Lembrei-me desse assunto porque foi anunciado pela mídia regional que a passagem de ônibus vai passar de 2,50 para 2,80 no dia 22 de dezembro, e tudo acontece meio que "no automático". Segundo a Prefeitura de Guaratinguetá, os contratos de concessão dos serviços de transporte coletivo de passageiros preveem o reajuste das tarifas, periodicamente, a partir das planilhas de custos. E isso, rigorosamente, não é o melhor, até porque não é avaliada a qualidade do serviço no dia a dia, esperando-se sempre que hajam situações limite para que alguma providência seja tomada.
   Isso explica a quantidade de carros existentes e, principalmente, a busca de alternativas de transporte, como bicicletas (motorizadas ou não), mototáxis não regulamentados, vans, carros particulares fazendo lotação, etc.


LocalidadesVariáveis199720022010
GuaratinguetáFrota de Automóveis20.53831.037
Frota de Ônibus225158
Frota de Motocicletas e Assemelhados4.62511.648
Táxis Registrados109

Fonte: SEADE (dados disponíveis em 6 de dezembro de 2011

   A frota de automóveis da cidade de um salto entre 2002 e 2010, corroborando essa teoria. São atualmente 31.037 veículos circulando numa cidade de 107 mil habitantes, o que é bastante significativo. Motocicletas e assemelhados deram um salto no mesmo período, mais do que dobrando em termos de quantidade, o que aumentou em muito o número de acidentes e problemas de trânsito.Táxis já foram mais escassos, e aumentaram, mas não há registro desse aumento nas pesquisas. No entanto, a prestação de serviços não é das melhores principalmente pelo preço cobrado - normalmente fazem aquela corrida com preço determinado, que nem sempre é o que o taxímetro cobraria (aliás, quase nunca).
   Tive acesso a um número de 2005, que fala de um total de 70.000 bicicletas na cidade. Não tenho comprovação disso, mas existem fortes indícios de que seja verdade, porque a maior parte da população se desloca mesmo com esse veículo, seja porque podem ter mais autonomia (os horários de ônibus e vans são muito espaçados), seja porque podem reduzir custos de maneira espetacular. A média mais baixa de um trabalhador em termos de gastos com transporte, num mês, é de R$ 134,40, o que equivale a dizer que, em dois meses, ele paga uma boa bicicleta que não dará problemas durante pelo menos um ano de uso. Uma família de quatro pessoas, por exemplo, onde os pais trabalham fora e os filhos estudam, gasta minimamente R$ 537,60 por mês, ou o equivalente a prestação de um carro popular comprado na agência. Isso explica o forte crescimento da frota de automóveis na cidade, principalmente quando o governo reduz o IPI e com isso viabiliza a compra desse bem, que no interior é essencial.
   Portanto, seguindo aquela lógica de que no interior você tem mais qualidade de vida, incorpore o fato de que, uma das coisas para isso, é a disponibilidade de um veículo. Caso contrário, sua vida será limitada por horários, fatores climáticos, estado de saúde, humor dos prestadores de serviços e tudo o mais que possa tirar sua autonomia, decorrente da ação de terceiros.






sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Maravilhas celulares



Guaratinguetá, 10 anos atrás. Corria o ano de 2001, e conseguir fazer uma ligação da zona rural exigia esforço e dinheiro. Primeiro porque não havia rede de telefonia fixa na área e segundo que a chamada “telefonia rural” tinha um custo exorbitante, que só podia ser pago por fazendeiros abastados. Um produtor rural de pequeno porte ficava num isolamento total, tal como no século XVIII.
Guaratinguetá, 2011. Minha sogra, que mora a 25km do centro de Guaratinguetá, dentro de uma fazenda, no meio do nada, comprou uma antena e um telefone de R$ 100,00 e fala à vontade. Todos os enormes problemas de comunicação foram eliminados, e note que eram muitos. Pessoas idosas, vivendo isoladas, correm riscos muito maiores, e já aconteceu de tudo nesse meio tempo sem que o incidente se transformasse em crise ou coisa pior. De falta de remédio a picada de cobra, tudo vai sendo resolvido com créditos adquiridos no pré-pago dela. A família de minha esposa, que é grande, vive conectada em rede celular, usando as promoções, descontos e atenta aos planos disponíveis.
Isso acontece hoje com frequência cada vez maior, inclusive com famílias que moram a milhares de quilômetros de distância, e as operadoras estão atentas a isso. Li recentemente que aqueles planos do tipo “R$ 0,25 por tempo indeterminado” foram criados para suprir a necessidade de contato entre aqueles que vieram do nordeste para trabalhar nas capitais do sudeste e seus familiares. Tem toda lógica. E funciona muito bem. Hoje, aquela cena do filme “Central do Brasil”, em que a Fernanda Montenegro protagoniza uma “escritora de cartas” em sua banquinha, cobrando alguns centavos para atender aos que não sabiam escrever em sua tentativa de comunicação com parentes distantes, é apenas figura do passado. O contato direto entre os corações se faz através de um telefonema.
Claro, ainda temos um dos sistemas mais caros do mundo, que vai sofrer ajustes redutores severos porque a competição está a cada dia mais acirrada. Mas também temos condições de fazer coisas formidáveis, mesmo com aparelhos dos mais baratos. E os celulares vão sendo colocados em lugar de destaque nas salas mais humildes, como símbolo de modernidade sim, mas de amor também. Quem não fala de boca cheia: “Esse negócio aí foi meu filho que me deu para eu poder falar com ele”. Sinal dos tempos.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Verdura nossa de cada dia

A típica casinha da roça em Guaratinguetá
   Acabaram-se as verduras! O que fazer? Num grande centro, ou mesmo nas cidades do interior, a alternativa lógica é ir ao mercado comprar. Ou a feira livre, que por sinal é um caso à parte e que no interior tem uma lógica toda própria. Qualquer hora dessas vou a uma para documentar, porque tem de tudo mesmo. A região aqui do fundo do Vale do Paraíba não é grande produtora de hortifrutigranjeiros, estando mais focada em produção de arroz, leite, etc. Mas fica próxima de áreas fortemente produtivas e isso facilita as coisas em termos de abastecimento.
Em cima do fogão a lenha, tripa de porco defumada.
   No entanto, a produção doméstica é ótima, porque o povo daqui sabe como fazer as coisas e mantém hortas muito produtivas e com produtos formidáveis. A necessidade de adubos é grande porque como o Vale do Paraíba foi esgotado pelo café em determinado momento de sua história, plantar é uma atividade  que requer mais do que apenas semeadura simples. Mas a tecnologia ajuda e com isso temos algumas coisas interessantes por aqui.
   Ontem fiz uma coisa impossível num grande centro - pelo menos para a maioria de nós - indo para a roça a noite e colhendo verduras e alguns legumes com a família. Um ótimo programa, principalmente porque para minha filha foi a oportunidade de ver coisas corriqueiras para quem vive da terra, mas que nunca são vistas na cidade.
Um "puxadinho" onde as galinhas se instalam a noite.
Por exemplo, ver as galinhas recolhidas para a noite é algo que só vê quem vive na área rural. Durante o dia é aquela atividade tremenda, mas a noite elas procuram um local seguro, porque são presas fáceis e geralmente se acomodam em locais mais altos.
O ato de colher também é uma daquelas sensações especiais, porque envolve a decisão sobre a escolha do que está pronto para o consumo, e isso rende conversas longas sobre coisas que a gente não tem nem idéia de quanto são importantes. Cor, textura, cheiro, e todos os detalhes que o homem do campo está cansado de saber e que para nós são um mistério.
   Valeu a pena. Voltamos da roça com braçadas de verduras frescas, tomates "cereja" em quantidade industrial, alfaces, repolhos e tudo o mais que queríamos ver num saladão parrudo. E com a certeza de que essa noite foi muito mais divertida do que acompanhar as aventuras da "Fina Estampa".

* * *

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Natal chegou no interior também



   Houve um tempo em que tudo demorava para chegar no Brasil e mais ainda para chegar no interior, mas num mundo interconectado, globalizado e a velocidade da internet, chega tudo rápido e às vezes até antes do necessário. Nesse frenesi de antecipação das vendas, tentando conquistar o consumidor, as coisas ficam realmente fora de controle. Mas é apenas sinal dos tempos e vamos nos acostumando.
   Nesse final de semana, fui a Guarulhos - atendendo a obrigações acadêmicas de minha mulher -  e no retorno resolvi jantar em São José dos Campos com a família. E o que a gente vê nos shoppings já é aquele clima que normalmente se instaura em meados de dezembro, acontecendo em início de novembro. Casa de Papai Noel e o próprio atendendo as crianças, com suas listinhas de presentes, além de uma horda de assistentes de Papai Noel, show de Natal, árvores de todos os tipos e tudo o que faz a festa aos olhos e ao coração.
   Enfim, temos que nos acomodar a esse ritmo alucinante, porque não há o que fazer. Ninguém freia o mercado, principalmente quando as perspectivas são boas em termos de vendas, como sinalizam os indicadores. Só não esperava tanta badalação tão cedo, e ainda mais no interior, mas como já vimos ... interior é outra coisa hoje em dia. Para o bem ou para o mal.
   De qualquer forma, o que se nota é que não há mais aquela distinção entre os grandes centros e as cidades populosas do interior em termos de gastos com decoração, contratação de artistas, shows pontuais e tudo o mais que a gente vê em grandes capitais.
   Estou procurando por aqui, no Cone Leste Paulista, as representações de Natal locais, na sua essência. Quem sabe aparece um Saci Noel ou uma Cuca Noel. Até agora, não achei nada a respeito, mas continuo procurando. Sei que tem coisas interessantes a respeito, e vou localizar. Por enquanto, ficam as fotos da decoração de Natal do CenterVale Shopping, em São José dos Campos.



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

As margens do Paraíba

Clique na foto, se quiser ver a sequência
Rios normalmente são fonte de inspiração e de belas paisagens, e pensando nisso, resolvi pegar a família e dar uma volta pelas margens do velho Rio Paraíba, que corta o município de Guaratinguetá e proporciona momentos formidáveis de lazer para toda a comunidade valeparaibana.

Domingo, sol ameno, outono, dia ideal para um passeio desses. O rio se mostra da melhor maneira possível, e o visual é ótimo.


Na cidade, existem ótimos acessos ao rio, margeando com segurança e conforto as suas águas e permitindo o melhor visual possível. Essa vista acima é de uma das trilhas do Bosque da Amizade, que tem aproximadamente 500 metros de extensão e permite caminhadas ótimas sob o frescor das árvores. Vale a pena.


Local calmo e seguro, ideal para um passeio em família. O horário que escolhemos foi exatamente aquele menos frequentado, próximo ao meio dia num domingo. Assim, aproveitamos a luminosidade e o calor ameno de outono.

Em alguns locais, as trilhas se bifurcam oferecendo ângulos
diferentes durante o passeio, o que quebra a monotonia do verde

Muito bom para momentos românticos também, é claro.
Grande lugar para um passeio de domingo antes do almoço.
Existem outros locais muito interessantes, às margens do Paraíba, que vou trazer para vocês mais adiante. Vale a pena dar uma olhada. O rio fica ainda mais bonito na região conhecida como "fundo do vale", nas localidades de Queluz, Cruzeiro e vizinhanças.


Passeio ao Pé da Serra


Diversão é uma palavra aplicável a muitas coisas, mas sempre infere bons amigos, temas interessantes, música e tudo o mais que possa entreter e manter unidas as pessoas envolvidas numa determinada atividade. E assim foi nesse sábado, dia 22, com a excursão ao Sítio Pé da Serra, pertencente à família Carrocci, e onde funciona a fábrica de cachaça artesanal "Pé da Serra", empreendimento pequeno porém altamente bem desenvolvido e com uma produção formidável tanto no aspecto da qualidade quanto do sabor.

Estiveram nessa jornada os amigos da FIESP, CIESP, SENAI, empresários e executivos diversos com suas esposas e o resultado foi um sábado formidável, onde saboreamos os petiscos da Dona Dre, acolhidos de forma espetacular e com direito a uma aula fantástica sobre a cadeia produtiva completa dos produtos comercializados ali.

O encontro foi capitaneado pelo Albertino (Joaquim Albertino de Abreu), Vice Presidente do CIESP (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) e contou com uma adesão de cerca de 20 pessoas do setor industrial e famílias. Abaixo algumas fotos do encontro, que tem tudo para ficar marcado na história e ser repetido várias vezes..

Início do serviço de comes e bebes no sítio
Heleninha na área de venda de produtos do sítio

Degustação (Carrocci, Albertino, Antonio Jorge, Edvaldo Nóbile
e esposa e Beto Carrapato (de costas)

Conversa sobre como funciona o sistema de fabricação

"Bico Farso", Carmona (Daruma) e entre eles o nosso
"Rolando Boldrin" genérico

Conversa ao pé da cachaça Pé da Serra

Aula em volta do alambique

Aula sobre processo produtivo

Área de armazenamento em tonéis de carvalho escocês

Beto Carrapato tocando a viola

Violada no sertão

Encerramento do passeio ao som de viola

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Vivendo no Interior - Parte I

Estacionar nos grandes centros está cada vez mais difícil
Falei anteriormente que existem “vários” interiores. Cidades com mais de 300 mil habitantes já começam a ter padrões de comportamento e problemas estruturais equivalentes aos das grandes metrópoles, mas ainda guardam aquilo que se poderia classificar como hábitos interioranos. Cidades com mais de 500 mil habitantes, perderam isso em algum momento, ficando mais com os problemas do que com os hábitos, mas ainda assim podem ser bem agradáveis para viver.

Lendo os jornais, fico sabendo que é cada vez maior a quantidade de pessoas que, em São Paulo, vão deixando a capital e mudando para o interior, em virtude da melhora da qualidade de vida para a família, ainda que os que trabalham mantenham seus empregos na capital. Isso é um dilema antigo de muitos, mas uma decisão que se mostra cada vez mais acertada para muitos. Cidades como Atibaia (SP), que fica a 66 km de São Paulo - um trajeto de aproximadamente 56 minutos ou Jundiaí (SP), distante mais ou menos 60 km pela Rodovia dos Bandeirantes, passam por um surto de crescimento contínuo frente a chegada de mais e mais famílias que fazem essa opção.
Mas, ao mesmo tempo que a preocupação com a segurança e qualidade de vida da família é o principal motor para essas mudanças, seus membros podem ser elementos complicadores, como no caso de filhos adolescentes que, em virtude de seu círculo social, não se adaptam ao novo modelo de vida. Em outros casos, opções por universidades mais afamadas também faz com que muitos não queiram deixar os grandes centros, complicando a estrutura do projeto, na medida em que efetivamente passam a ser dois os locais de morada, dividindo assim a família e onerando o caixa.
De toda forma, se você não tem maiores problemas - ou por ter filhos já encaminhados ou por serem os mesmos ainda muito novos para decidirem qualquer coisa a esse respeito - estar em uma cidade do interior é algo bastante vantajoso.
Tendo em conta, por exemplo, que a quantidade de carros quase dobrou no Brasil nos úlitmos dez anos, passando de 21 milhões para quase 39 milhões de veículos, sendo a maior concentração dos mesmos nos grandes centros, já se pode ter uma idéia de como a coisa é complicada não só para circular, mas principalmente para estacionar um carro numa grande cidade. E mesmo quando você tem que pagar estacionamento, numa cidade do interior o valor médio é de R$ 3,00 para a primeira hora, e R$ 1,00 pelas horas seguintes. Já numa cidade como São Paulo, pela escassez, esse serviço pode alcançar algo como R$ 900,00 por mês para um motorista que use o carro para trabalhar, o que impacta em qualquer orçamento de maneira cruel.
Bem, imaginando que os 1,8 milhões de veículos - frota legal da cidade do Rio de Janeiro - resolvessem ir à rua ao mesmo tempo, a situação já seria caótica. Mas imagine esse contingente de motoristas tentando achar uma vaga entre as 45 mil legalmente existentes na cidade. Trágico. A relação é de 40 carros para uma vaga, quase um vestibular para Medicina em alguma conceituada universidade pública. E conseguir estacionar é algo que deve ser comemorado como entrar para a faculdade, nessas circunstâncias!
Bem, esse é um dos aspectos que achei interessante relatar, frente as informações que fui recebendo durante o final de semana. Mas vamos falar dos dois aspectos: o bom e o ruim. Tudo para você poder entender essa dinâmica pela ótica de quem já está aqui mas veio de lá.

domingo, 2 de outubro de 2011

Vaca atolada

Uma receita simples e maravilhosa.


A mandioca, dádiva de Tupã, é a vida vencendo a morte. A pequena Mani ressuscita em forma de verde planta, consolando o coração da mãe que a havia perdido. Hoje, respeitar essa dádiva é dever de todos. E a vaca? Sua história é interessante pelo altíssimo custo desse animal há 300 ou 400 anos no nosso país. Imaginemos a chegada delas aos portos de Paraty, Mambucaba ou Angra, e a travessia pela Serra da Bocaína, desses animais considerados sagrados conforme os princípios asiáticos. O fenômeno da união entre o animal e o vegetal, haverá de ser considerado por todos nós. Essa cruza é a autêntica culinária tropeira, que cultua o sagrado.

Modo de fazer
  1. Temperar as costelas de vaca (partidas em pedaços) com sal, alho e pimentão
  2. Deixar descansar por duas horas, refogar no óleo deixando corar, após pingar água até que fique cozida de modo que fique caldo na panela
  3. Quando a carne estiver cozida, acrescenta-se as mandiocas pré-cozidas misturando com a carne e deixe cozinhar tudo por mais alguns minutos.
  4. Quando a mandioca estiver quase no ponto, cubra com as rodelas de cebola
  5. Deixe ferver até terminar o cozimento
  6. Dispor de uma travessa, as costelas por baixo e as mandiocas por cima
  7. Servir imediatamente



Ficha técnica

Tempo de preparo: 01h30
Grau de dificuldade: médio

Ingredientes

1 ½  quilo de costelas de boi
½  xícara de óleo
2 cebolas cortadas em rodelas
1 pimentão pequeno picado bem miúdo
1 quilo de mandioca pré-cozido
1 colher de sopa de sal com alho.


Retirado do livro VIAGEM DE TROPEIROS ENTRE SERRAS, de Ocílio Ferraz

sábado, 1 de outubro de 2011

O Frango da Revolução


  Na fazenda Sertão, no limite entre Silveiras e Cunha, em plena Trilha do Ouro, esse prato foi servido para 400 soldados sergipanos, durante a Revolução de 1932. O leite que não pôde chegar ao laticínio, coalhou em latões de 50 litros. A coalhada fez render a comilança. Foram servidos, como sobremesa, pedaços de rapadura e açúcar preto produzidos na Fazenda. As patacas recebidas por ordem do Comandante da Tropa, serviram, após o final da Revolução Constituinte, para a Romaria até Aparecida, orações e compra de quinquilharia na barraca da Dona Margarida, e foram distribuídos para as crianças e parentes ao derredor da Fazenda. A graça foi alcançada: não houve martírios, sequer conflitos e a autora desse prato foi a jovem Laura da Silva Azevedo, tia/madrinha de Ocílio Ferraz.

Modo de fazer:

  1. Temperar o frango com o suco dos limões, sal com alho, pimenta do reino. O suco de limão é o melhor meio que temos para limpar a carne, inclusive a carne de porco. Cobrir com água e deixar descansar por três horas;
  2. Em fogo médio esquentar uma panela de ferro e colocar a banha ou óleo e quanto quente, refogar o frango até dourar; se o frango for de granja, doure-o bastante para que o mesmo não fique despedaçado após o cozimento. Em seguida, colocar água e deixar o frango cozinhar até ficar macio , de modo que fique com bastante molho na panela;
  3. Feito isso, coloque quatro colheres de sopa de óleo de urucum e duas cebolas grandes cortadas em rodelas e refogue até que as cebolas fiquem macias;
  4. Depois, coloque a coalhada, misture e tampe; deixe ferver até incorporar ao frango o sabor autêntico da coalhada;
  5. No momento de servir, envolva o molho e os pedaços de frango com farinha de milho amarela.
Tempo de preparo: cerca de 2 horas
Grau de dificuldade: médio

Ingredientes:

01 frango caipira ou de granja cortado em pedaços
Suco de três limões cravo
01 Colher de sopa de sal com alho socado na hora
Pimenta do reino moída, a gosto
1/2 xícara de óleo de urucum
02 Cebolas grandes cortadas em rodelas grossas
03 xícaras de coalhada
02 folhas de louro

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Gentes, coisas, crenças e heranças


A Mulher

A casa dos tropeiros era modesta, chão de terra batida e paredes ora de barro ou madeira, ora de adobe - tijolo artesanal feito de capim, água, terra e areia, ou ainda de pau-a-pique.
Em virtude da prolongada ausência dos maridos e de alguns filhos, as mulheres cuidavam da casa, zelavam pela própria sobrevivência e de seus filhos, com muita determinação.
O espaço dos homens estava fora da casa, de onde trazia os meios de manutenção da família; a mulher, por sua vez, considerava como sendo o seu espaço o interior da casa - onde cozinhava, descansava, cozia e educava seus filhos - e, quando muito, à sua volta, onde estavam os animais domésticos e as plantações, que eram o real meio de subsistência.
Retornando o homem da jornada, reuniam-se os empregados que o acompanharam para os acertos. As mulheres da casa não apareciam, ficavam na alcova - um quarto sem janelas, protegidas pela única porta que servia de ligação para o resto da casa.

Vestimentas

O poncho, capa ou a pala eram as vestimentas típicas do tropeiro arreador, nas andanças do sul, nas madrugadas e nas serras. Tão longos que eram, cobriam as ancas do animal em que estava montado o tropeiro. Protegiam da chuva e, às vezes serviam de barraca quando vinha o sono e até ocultavam as armas - clavina, garrucha, lapeana - que carregavam.
O chapéu, grande de feltro e abas largas, camisa, ceroula e calça folgada. Na cintura uma faixa de pano colorida ou guaiaca feita de couro para carregar miudezas agulha, canivete e por fim, o calçado - detalhe que os diferenciava e demonstrava o poder sobre os demais homens da tropa. Em uma tropa, os camaradas tropeiros estavam sempre descalços e tanto as camisas quanto as calças eram folgadas. Usavam um modesto chapéu de palha e um cajado que servia de apoio na íngreme caminhada.

Profissões

O elenco de atividades ligadas ao tropeirismo é enorme. Profissões foram naturalmente se desstacando em torno das atividades do setor. Tal qual os tropeiros, em geral, eram profissões que passavam de geração em geração, de pai para filho.

a) O Rancheiro
Era encarregado da manutenção do rancho onde a tropa pernoitava. Cobrava, na região sudeste onde as tropas já estavam domadas, por cangalha e oferecia abrigo aos homens em uma estrutura de sapé e aos animais um pasto exclusiva para pernoitar e pequenos pilares para que  pudessem ficar amarrados para serem carregados e descarregados.

b) O Cangalheiro
Artesã extremamente habilidoso, era o responsável pelas cangalhas que deveriam ser leves, contudo capazes de resistir ao tranco das mulas e ao peso da mercadoria durante todo o percurso. A madeira utilizada para a confecção das cangalhas e dos ganchos que a sustentavam chamava-se açoita-cavalo. Os ganchos eram produzidos ainda na floresta e depois aperfeiçoados nos ranchos. Caso uma cangalha ou gancho tivesse pouca duração, o artífice estava condenado e a notícia do desastre “corria” mais do que a ropa. Mais rápido do que noticia ruim.

c) O Seleiro
Encarregado dos arreamentos dos animais e do couro para as cangalhas.

d) O Trançador
Trançava tiras de couro e os pelos das crinas do pescoço e cauda dos animais, as serdas - cordas, cabresto e rédeas.

e) O Cesteiro ou Jacazeiro
Confeccionava jacás de diversos tamanhos, balaios, cestas em formatos especiais, muitas vezes encomendados, dependendo do que seria necessário transportar - galinhas, porcos, queijos, crianças.

f) O Funileiro
Era responsável por uma fama de utensílios que os tropeiros carregavam a começar pelos cincerros da madrinheira - de extrema importância e beleza, feito de latão ou cobre batido. De suas oficinas saíam ítens básicos para a cozinha - de metal, cobre, latão ou folha de flandres - como panelas, as medidas de quarta, as canecas de quarto de litro para água, as canequinhas para café e cachaça e a ciculateira.
Por suas habilidosas mãos eram ainda executadas as lamparinas de querosene nos mais variados formatos, os candeeiros e os tachos, enormes, nunca levados nas jornadas, mas que eram indispensáveis nas casas dos tropeiros, nas torras de farinha, na produção do açúcar preto, rapadura e em toda a doçaria da época.

g) O Ferreiro
Feitas uma a uma, de ferro batido, as ferraduras eram encomendadas ao ferreiro, para o proteger o casco dos animais. Se elas, os animais acabavam tendo defeitos enormes em suas passadas, o que reduzia sua capacidade de trabalho. De quatro tipos diferentes - inglesa, mineira ou de rompão, de adorno e a de chapinha -  chegavam a pesar 400 gramas e tinham de 6 a 8 furos. As de sete furos eram muito raras e muito procuradas porque davam sorte! Sua durabilidade variava em função dos trechos que as tropas percorriam. Em ruas calçadas, duravam um tempo mínimo, às vezes quinze dias, no máximo um mês. Nas estradas de terra muitas vezes eram dispensáveis; caso contrário, sua durabilidade chegava até mesmo a 90 dias.

h) O Ferrador
No trecho da trilha do Ouro e do Café, havia os fantásticos catadores de ferraduras e o ferrador as comprava, reciclando-as. Retirava os cravos, a ferradura velha, aparava os cascos e colocava a nova. Se o animal era muito bravo, contava com um ajudante para levantar suas patas, colocar o pito na mula que, de tanto dor, não oferecia mais resistência.
O ferrador muitas vezes recorria a São bravo, rezando sua oração, dando três voltas em torno do burro, solicitando bênçãos para que “ele não morresse de raiva por ter sido ferrado”.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A tropa

O tropeiro
Tropeiro, do nome tropero, originário da Espanha.


Corajosos, desbravadores. Enfrentaram feras, climas hostis, doenças, as árduas trilhas longas, misteriosas e perigosas, o distanciamento das famílias, o aconchego do lar, a total falta de conforto para transportar mercadorias e servir de mensageiros da população, em sua bagagem, levavam e traziam recados, cartas, bilhetes, além de tecidos e aviamentos.
Foram o pivô da integração nacional - cultural e territorial - e fator básico da economia brasileira. A estrutura da tropa xucra era constituída de 250 a 500 animais. Conforme o desenvolvimento de cada região, ocorria a divisão em lotes de 7 a 24 animais já domados.
Uma hierarquia original ocorria dentro das tropas, que acabava por diferenciar, social e economicamente, os grandes homens que a compunham.
Na melhor besta, trajando botas, calça, camisa e chapéu ia o arreador, a quem a tropa pertencia. Mantinha a ordem e era responsável pelas cargas transportadas. Sempre levava um capataz para ajudá-lo na administração da tropa - nas compras e vendas de animais, formação da comitiva e na contratação de ajudantes, enfim, participava das decisões.
Conduzindo a tropa, ia o tocador, responsável por instigar os animais quando empacados ou amontoados, evitando que se pisoteassem, e reuni-los quando dispersavam. Nas paradas também era sua função carregar e descarregar os animais além de ajudar em todas as tarefas. Sempre descalço e a pé, levava o guarda-peito a lhe cobrir os joelhos e na cintura o tapa-cara.
Encabeçando a caravana, ou “madrinhando a tropa”, o madrinheiro, também chamado de guiador - menino entre oito e doze anos, geralmente filho de tropeiro - seguia montando a égua na frente do grupo, a madrinheira. Ela ia toda enfeitada, com um sino no pescoço cujo som era facilmente reconhecido pelo madrinheiro e pela tropa. Descalço, calça, camisa, guarda peito e chapéu de palha, lá ia o guiador. Ser madrinheiro foi o começo de todos os tropeiros. Seguindo criança ainda o exemplo do pai, mais velho e experiente, chegaria a ser tocador ou , quem sabe, arreador.
A primeira mula da tropa era o orgulho do tropeiro: era besta dianteira, toda enfeitada com seus cincerros - conjunto de 7 a 11 sinos rústicos pendurados no pescoço. Orientava e não se deixava ultrapassar pelas outras mulas, dando coices e mordendo, se necessário fosse.
Depois, uma a uma, as demais bestas de carga. E ao final vinha a mula culatreira, com andar mais manso e sossegado, mais idosa e sem a altivez da madrinheira.

A Viagem

De madrugada, o madrinheiro acendia o fogo com a trempe para o café e o feijão. Enquanto isso recolhiam a madrinheira e as demais bestas, preparando a tropa para o seu destino, traçado na cadência dos sinos e dos cincerros.
Pelas oito horas da manhã, já em local pré-escolhido, era tempo de apear para o almoço. Do culatreiro, de dentro dos jacás, tiravam-se os alimentos - feijão, carne salgada, açúcar mascavo ou rapadura, sal e farinha. Nas cangalhas, ficavam todos os “trens de cozinha”, caldeirão para o feijão, panela de ferro para o arroz e o torresmo, as canequinhas, os pratos e a cuia de meia cabaça. O madrinheiro menino zelava pelo fogo e cuidava do almoço, enquanto os demais se encarregavam da tropa. Após a refeição, também era tarefa do madrinheiro lavar e guardar todas as vasilhas de volta nos jacás. Esta parada era rápida, quase tudo preparado de madrugada, na hora do café. Ao final da manhã, em torno do meio dia, um descanso para esperar o sol baixar e então, nova caminhada com destino ao último pouso. Incansáveis, os tropeiros perseguiam seu destino vencendo caminhos, atravessando rios, enfrentando chuvas e tempestades.
Quando deparavam com algum enorme lamaçal, o ligal que protegia as cargas da chuva e era usado para dormir, virava tapete de tropa -  e era estendido para a passagem das bestas.Quando cruzavam por esses caminhos com outras tropas, ajudavam-se uns aos outros no que fosse preciso e a preferência era daquela que estivesse subindo.
Depois de um dia de jornada, caminhando aproximadamente três léguas (ou dezoito quilômetros), o descanso no pouso era refúgio bem-vindo. Estavam protegidos nos ranchos, construções rústicas cobertas com sapés ou telhas e sem paredes. Abrigavam várias tropas e os responsáveis pela manutenção eram chamados de rancheiros.
Fora da cobertura, haviam várias estacas para que os burros pudessem ser amarrados, dois a dois, e então descarregados. Era preciso ter cuidado com as mercadorias - mais ou menos 80 quilos por animal - para não misturar, pois pertenciam a diferentes donos. Os animais eram então alimentados, em média um quilo de milho por mula, e depois soltos para pastar e passar a noite.
Em ocasiões em que a tropa ficava impedida de prosseguir, ocorriam reuniões, festas, músicas, catira, os causos, o jogo de truco; caso contrário, a exaustão prevalecia e sobre o ligal vinham o descanso e o sono merecidos.

* * *
Ainda que possa parecer que o tema é recorrente nesse blog, confesso aos amigos que estou muito impressionado com o tema e principalmente com a falta de elementos a respeito. Por isso, ao me deparar com o livro "Viagens de Tropeiros entre as Serras" - São Paulo, Caminhos da Colonização, fiquei bastante triste em saber que foi editado em condições especiais, com tiragem limitada e totalmente esgotado. Nessa publicação de Ocílio José Azevedo Ferraz, todo o panorama da época de ouro do tropeirismo é descortinado de forma simples, poética mas com forte documentação de apoio. Chegamos a conversar sobre a possibilidade da criação de um Instituto de Tropeirismo, mas o projeto embora lançado, não seguiu em frente. Estou digitando então várias partes desse precioso livro, tendo em conta que muita gente gostou do assunto e não terá oportunidade de conhecer a obra e seu conteúdo precioso. Em mais um ou dois artigos, esgoto o tema, mas deixo uma possibilidade aberta de ampliação do conhecimento para muitos que tenham interesse. Espero que gostem, e fica aqui uma homenagem ao Ocílio Ferraz, pela ousadia que teve em transformar a informação em poesia.
Nelson Marques

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A Estrada de Ferro Bananal

Estação Ferroviária de Bananal


   O processo é cíclico, e várias cidades do Vale do Paraíba já assumiram o posto de "capital do vale" ao longo dos anos. No início, foi Guaratinguetá a cidade de ponta, um grande enclave de mercadorias que vinham do sul de Minas Gerais e cruzavam com aquelas que vinham do porto de Paraty, além de ser cidade no eixo Rio x São Paulo, mesmo nas condições precárias de circulação de então. Lorena já despontou nessa condição também, por conta da Estrada Real. No início da industrialização do Vale, Taubaté reinou e hoje, no momento do desenvolvimento do Vale Tecnológico, São José dos Campos é dona absoluta da ponta de prosperidade da região.
   No entanto, na segunda metade do Século XIX, no período mais pujante do café, Bananal era tudo o que os demais municípios queriam ser. Hoje com 10 mil habitantes apenas, explora o turismo histórico como fonte de renda, sendo que duas construções da cidade chamam a atenção ao visitante: a estação ferroviária e o Solar, antiga residência da família Aguiar Valim".
   Olhando para o que hoje é Bananal, e sabendo do desconhecimento quase total sobre a sua importância no passado recente, expor números como os que podem ser facilmente coletados em pesquisas menos profunda parece até um ato temerário, mas em 1860, Manoel de Aguiar Valim era proprietário de pelo menos 80% das terras do município, tendo herdado boa parte da fortuna do Comendador Luciano José de Almeida, ao casar com a filha dele, Domiciana Maria de Almeida. Foi ele quem mandou construir a residência onde trabalhavam 40 escravos, sendo o homem mais poderoso da cidade, com sua fortuna construida sobre o café e sustentada pela mão de obra escrava. Era também o titular de uma fortuna correspondente a 1% de todo o o papel moeda circulante no Brasil!
   A riqueza dos Valim era de tal monta que contrataram o pintor espanhol José Maria Vilaronga para decorar a residência da família. Entre as propriedades produtivas, a principal era a Fazenda Resgate, até hoje possível de ser visitada, sendo um passeio imperdível para quem vem ao Vale do Paraíba - muito embora poucos saibam disso.
   Valim escoava a produção de suas terras em lombo de animal, em viagem de Bananal a Barra Mansa. Eventualmente também mandava café pelos trilhos da Central do Brasil. Mas o número de assaltos começou a crescer nesse trecho já conhecido de transporte de mercadorias e, em 1870, o grande proprietário decidiu que estava na hora de implantar uma ferrovia própria para fazer esse trabalho, dando início a construção da Estrada de Ferro Bananal. Não teve sorte, no entanto, e veio a falecer em 1978, quando não havia sequer iniciado a construção propriamente dita, sendo que só quatro anos após sua morte, os primeiros trilhos seriam assentados.
   Nesse meio tempo, a família resolveu fazer a estação ferroviária de Bananal e para isso importou uma estrutura completa da Bélgica, que veio de navio em sessões ajustáveis, de tal forma que pudesse ser trocada de lugar, mesmo depois de instalada na área originalmente projetada. Com estrutura toda em ferro fundido, a estação havia sido fabricada pela empresa Forges, na cidade de Aiseau, na Bélgica.
   A construção da estrada de ferro foi demorada, e seus 11 quilômetros demoraram cerca de dez anos para se tornar realidade, sendo que o período de construção foi turbulento em todos os sentidos. Um dos maiores impactos foi a Abolição da Escravatura, em 1888, quando toda a mão de obra dos cafezais fugiu tão logo houve o anúncio do fato. Não ficou um escravo sequer na cidade, segundo os registros de época. Tanto a construção da ferrovia quanto a produção de café continuaram, com nova mão de obra, seguindo assim até  a véspera do Natal de 1888, quando foi assentado o último trilho. A inauguração mesmo ocorreu em 1o. de janeiro de 1889, ano da Proclamação da República - sendo essa o segundo revés - que foi uma mudança política que afetaria Bananal de uma maneira negativa. No dia da inauguração, 3 de janeiro de 1889, o mercado do café já apresentava instabilidade para a cidade.
Não tendo atendido a produção de café na sua plenitude, o caminho de ferro acabou transformando-se numa grande obra inútil para uma cidade que já não podia sustentá-la. Disputas políticas fizeram a construção se arrastar e até um engenheiro foi morto, logo depois da inauguração, em emboscada de um grupo político rival.
A viúva, Dona Domiciana e o herdeiro dos Valim, vendo sua fortuna se dissipar no empreendimento, resolveram vender o mesmo para Domingo Moitinho, homem de origem lusitana e de grande fortuna, que arrematou também as fazendas da família. O grande problema foi que a região noroeste do Estado de São Paulo evoluiu na plantação do café em condições muito mais produtivas e Moitinho passou a enfrentar problemas financeiros, hipotecando fazendas, a estação e a ferrovia, hipoteca essa que só foi paga em 1914, pelo filho de Moitinho, que já não podia manter a estrutura em funcionamento. Nessa época o transporte feito era primordialmente da produção do laticínio Lusitano, única indústria da cidade, e da população entre Bananal e Barra Mansa.
   Em 1919, tanto a ferrovia quanto a estação foram entregues ao Governo Federal, e o palacete dos Valim foi entregue ao Governo do Estado, que o transformou numa escola. Os Moitinho nunca foram indenizados pelo governo.

O fim de um grande projeto

Melancolicamente, os moradores da região tiveram que dar adeus ao trem, que nos seus derradeiros dias transportava apenas uma pequena produção de leite do muncípio e algumas dezenas de passageiros, diariamente. A ferrovia funcionou assim até 1963 e foi finalmente desativada em 1o. de junho de 1964, servindo durante algum tempo como ferroviária. No início do século XXI foi completamente fechada e alvo de uma disputa judicial entre a prefeitura e os Correios, ao qual atualmente pertence.
Bananal ainda sofreu um impacto severo novamente quando no início do século XX foi cortada pela Rodovia Rio x São Paulo, que naquela época cortava a cidade e tornou-a passagem obrigatória para os primeiros veículos do país criando um surto de desenvolvimento que desapareceu no dia seguinte a inauguração da Rodovia Presidente Dutra, que passava distante da cidade. Quando essa foi inaugurada, Bananal caiu no esquecimento.