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segunda-feira, 2 de abril de 2012

O arroz preto, branco e vermelho do Vale

   Como prometi ontem, vou falar hoje do meu programa de final de semana, que foi ótimo. Estive neste domingo na III Abertura Oficial da Colheita do Arroz no Vale do Paraíba, evento que aconteceu no bairro Colônia do Piagui, em Guaratinguetá (SP). Embora o evento tenha ocorrido em três dias consecutivos, o domingo teve um caráter especial por ser o momento da gastronomia, que aconteceu no Salão de Festas da Igreja de São João Batista, naquele bairro.
   Programação intensa desde as 09h00, com procissão com imagens carregadas em carro de boi, missa campal, benção de máquinas agrícolas (moderníssimas e quase todas dirigidas por mulheres), banda do Exército de Lorena, enfim, tudo que uma festa do interior tem que ter, e mais um pouco.
Prato bem servido a R$ 12,00 - arroz com carne seca e acompanhamentos
   Ao meio dia, começou o festival gastronômico com a abertura das barracas que serviram arroz com tudo o que você possa imaginar. Costelinha de porco, vaca atolada, carne seca, mandioca frita, linguiça calabreza...uma beleza.  Momento muito especial para aproveitar com a família e principalmente para conhecer uma faceta do Vale do Paraíba que é bem desconhecida, qual seja a da cultura do arroz. Empresas da região e produtores rurais tem investido pesado nessa prática, desenvolvendo variedades interessantes e que estão caindo no gosto de muita gente, como o arroz preto e o arroz vermelho - que atingem altos preços nas grandes metrópoles, recomendados por muitos chefs.
Pote de Arroz Preto Ruzene vendido no festival gastronômico
   Domingo agradável e cheio de encontros com pessoas que de outra forma a gente não vê, na pressa do dia a dia. Valeu a pena o passeio.

Festival lotado ao meio dia. Foi a grande opção para o almoço de domingo.
Muito artesanato também a mostra, tudo feito na Colônia do Piagui
Arroz de todo tipo na feira da festa. Vale a pena conhecer as variedades



sábado, 31 de março de 2012

Que falta fazem os trens



  Dia 29 de Março, uma data importante para quem gosta de trem. Foi em 1855, nessa data, que nasceu a Estrada de Ferro Dom Pedro II, ferrovia privada, que foi encampada pelo governo imperial em 1865. Em 1889, com a República, passou a ser chamada de Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB).
  Hoje, aqui no Vale do Paraíba, o que se vê é um surto de aproveitamento, por parte das prefeituras, das antigas estações que vão sendo transformadas em centros comunitários, museus da ferrovia e escolas de arte. Projetos são feitos para restauro dos prédios - muito bonitos na sua grade maioria - e nas ações que podem ser úteis às comunidades. No entanto, o que tenho observado quase sempre é aquele movimento intenso inicial e depois... paralisia. E novamente vão as estações sendo consumidas pelo tempo.
  Em Lorena, já tive oportunidade de ver várias peças de teatro, eventos empresariais, reuniões de entidades, etc. Em Guaratinguetá, nada há muito tempo. Pindamonhangaba mantém sua estação aberta até porque serve como base operacional da Estrade de Ferro que liga a cidade a Campos do Jordão, passeio imperdível e difícil de ser feito por conta da pouca estrutura e do interesse enorme que suscita.
 Aparecida deu a largada, mas não foi muito adiante também, o que é uma pena.
  Quem mora no Vale do Paraíba tem que conviver com a situação de, tendo hora marcada e saindo de casa com antecedência, ainda assim se atrasar porque o “trem passou”. A cidade é cortada ao meio pela linha férrea e quando uma composição está chegando as cancelas são abaixadas e você pode ficar entre cinco e vinte minutos esperando, com o carro desligado, que uma composição de duzentos vagões passe carregado de produtos industriais dos mais diversos. É irritante, mas como tudo mais na vida, a gente acaba se acostumando.
  Mais irritante do que esperar passar uma composição industrial é ficar pensando em quanto desperdício é ter uma linha pronta, que liga as duas maiores capitais do país, sem utilização para o transporte de passageiros! Como é burra essa lógica de que ônibus e avião resolvem o problema do tráfego de pessoas em volumes crescentes como temos visto ao longo dos anos. Viajar de trem tem a componente emocional que nenhum outro sistema incorpora. O avião pode ser impressionante pela rapidez - em outros tempos era assim, porque hoje, com o colapso dos aeroportos, o que impressiona é confusão generalizada na partida e na chegada. Ônibus é aquela coisa burocrática e chata. Seis horas sentado e se amarrotando todo, sem posição para nada. Carro, um desgaste só. Já de trem … que espetáculo. Partida na Gare, a noite. Entrada no vagão dormitório e na cabine escolhida. Colchões super-confortáveis, ar condicionado, banheiro (aliás, um mini-banheiro sensacional, com aproveitamento de um espaço mínimo). E tudo rebatível, de maneira que, antes de dormir, você podia sentar num sofá aconchegante e ler, conversar, ver a paisagem que lentamente ia passando pela janela. Sem contar a sensação de começar a  viagem no vagão-restaurante, com direito a jantar “a la carte”, ambiente limpo, tudo organizado. E depois de uma noite de sono formidável, um café da manhã reforçado e pronto, você estava no seu destino arrumado e pronto para um dia de trabalho. Opcionalmente, à noite o retorno em grande estilo sem qualquer sequela de desgaste da viagem.
  Nas histórias que circulam pela região, há um sabor especial naquelas contadas pelos ex-ferroviários, aposentados que ainda lutam para preservar a memória daqueles tempos. Por exemplo, o serviço era tão bem estruturado que havia uma “classe mortuária”, onde eram transportados corpos de pessoas que haviam morrido em uma cidade e seriam enterrados em outras. Contam os mais antigos que o trem passava vagarosamente pelas estações do seu trajeto transportando sua carga fúnebre. Alguns hábitos ficaram arraigados em gerações que, após a missa, corriam para a estação para ver as personalidades que estavam passando por ali, naquele dia. Em Pindamonhangaba, conta-se a história de um dia em que o trem, transportando o então presidente Epitácio Pessoa, iria passar pela estação. Foi montada uma festa enorme, com banda de música e tudo o mais. O povo acorreu todo para lá. O maquinista da composição tinha ordem de passar direto, mas quando viu aquele mar de gente acabou se empolgando … e parou em Pinda. Coisas que só quem viu pode contar.
  Enfim, em seus mais de 150 anos de existência os trilhos da estrada de ferro ainda esperam a volta do movimento nas estações. Se ao invés de “trens-bala” houvesse interesse político em fazer voltar esse sensacional meio de transporte, os custos seriam infinitamente inferiores, e a satisfação muito maior. Reativar os trens seria uma solução maravilhosa, e não perco a esperança de ver isso acontecer.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Café e as transformações no Vale do Paraíba

A saudosa Maria Fumaça...
   A cafeicultura expandiu-se fortemente no Vale do Paraíba, no princípio como arbustos medicinais e, pouco tempo depois, como a maior fonte de riqueza da região; "o maior fenômeno agrícola do século". Avançou pelo Vale do Paraíba, atingindo em meados do século XIX a província de São Paulo.
   Surgiram os Barões do Café e com eles grandes transformações na sociedade. As casas residenciais saíram das fazendas para as cidades. Aprimorou-se a decoração - cópia da francesa; vieram os teatros, os saraus, as requintadas festas. Mudaram-se os costumes, refinou-se a educação.
   Foram também os Barões que trouxeram com seus investimentos a estrada de ferro. Esta aproximou Vale e Corte, mas também trouxe a decadência dos portos no litoral com a inauguração do transporte ferroviário, que ligou os principais municípios paulistas ao porto de Santos, entre 1867 e 1872, e a estagnação de tantas cidades do Vale, tendo em vista sua distância dos trilhos.
   As mulas ainda se faziam necessárias tanto dentro das grandes fazendas, no trabalho árduo dos colonos, como para o transporte de cargas até as ferrovias, que por vezes eram muito distantes.
   A queda do café iniciou-se e com ela alguns povoados extinguiram-se. Era o final do Século XIX e início do Século XX.
   As décadas de 20 e 30 do novo século trouxeram consigo o crescente desenvolvimento de grandes centros como  a capital de São Paulo, Ribeirão Preto, entre outras cidades interioranas, tendo como pano de fundo o avanço e a expansão das ferrovias e das estradas. Entretanto, ainda em 1940, estados como Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso ainda dependiam das mulas para fazer girar sua economia.
   O tropeirismo dava sinais de declínio e ia sendo absorvido, pouco a pouco, por outras formas de transporte, primeiramente com o advento dos trens e a melhoria das condições de navegação e, depois nos anos 50, com a chegada dos caminhões e tratores.
   Chegam as ferrovias, chegam os automóveis. Vão-se os muares e os tropeiros. O legado há de se perpetuar através dos séculos. As lembranças sempre estarão presentes, principalmente quando a "prosa" estiver boa e o café saboroso.

(extraído do livro " Viagens dos Tropeiros Entre Serras", de Ocílio Ferraz, Editora Antonio Bellini). Sob autorização do autor.