segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A Estrada de Ferro Bananal

Estação Ferroviária de Bananal


   O processo é cíclico, e várias cidades do Vale do Paraíba já assumiram o posto de "capital do vale" ao longo dos anos. No início, foi Guaratinguetá a cidade de ponta, um grande enclave de mercadorias que vinham do sul de Minas Gerais e cruzavam com aquelas que vinham do porto de Paraty, além de ser cidade no eixo Rio x São Paulo, mesmo nas condições precárias de circulação de então. Lorena já despontou nessa condição também, por conta da Estrada Real. No início da industrialização do Vale, Taubaté reinou e hoje, no momento do desenvolvimento do Vale Tecnológico, São José dos Campos é dona absoluta da ponta de prosperidade da região.
   No entanto, na segunda metade do Século XIX, no período mais pujante do café, Bananal era tudo o que os demais municípios queriam ser. Hoje com 10 mil habitantes apenas, explora o turismo histórico como fonte de renda, sendo que duas construções da cidade chamam a atenção ao visitante: a estação ferroviária e o Solar, antiga residência da família Aguiar Valim".
   Olhando para o que hoje é Bananal, e sabendo do desconhecimento quase total sobre a sua importância no passado recente, expor números como os que podem ser facilmente coletados em pesquisas menos profunda parece até um ato temerário, mas em 1860, Manoel de Aguiar Valim era proprietário de pelo menos 80% das terras do município, tendo herdado boa parte da fortuna do Comendador Luciano José de Almeida, ao casar com a filha dele, Domiciana Maria de Almeida. Foi ele quem mandou construir a residência onde trabalhavam 40 escravos, sendo o homem mais poderoso da cidade, com sua fortuna construida sobre o café e sustentada pela mão de obra escrava. Era também o titular de uma fortuna correspondente a 1% de todo o o papel moeda circulante no Brasil!
   A riqueza dos Valim era de tal monta que contrataram o pintor espanhol José Maria Vilaronga para decorar a residência da família. Entre as propriedades produtivas, a principal era a Fazenda Resgate, até hoje possível de ser visitada, sendo um passeio imperdível para quem vem ao Vale do Paraíba - muito embora poucos saibam disso.
   Valim escoava a produção de suas terras em lombo de animal, em viagem de Bananal a Barra Mansa. Eventualmente também mandava café pelos trilhos da Central do Brasil. Mas o número de assaltos começou a crescer nesse trecho já conhecido de transporte de mercadorias e, em 1870, o grande proprietário decidiu que estava na hora de implantar uma ferrovia própria para fazer esse trabalho, dando início a construção da Estrada de Ferro Bananal. Não teve sorte, no entanto, e veio a falecer em 1978, quando não havia sequer iniciado a construção propriamente dita, sendo que só quatro anos após sua morte, os primeiros trilhos seriam assentados.
   Nesse meio tempo, a família resolveu fazer a estação ferroviária de Bananal e para isso importou uma estrutura completa da Bélgica, que veio de navio em sessões ajustáveis, de tal forma que pudesse ser trocada de lugar, mesmo depois de instalada na área originalmente projetada. Com estrutura toda em ferro fundido, a estação havia sido fabricada pela empresa Forges, na cidade de Aiseau, na Bélgica.
   A construção da estrada de ferro foi demorada, e seus 11 quilômetros demoraram cerca de dez anos para se tornar realidade, sendo que o período de construção foi turbulento em todos os sentidos. Um dos maiores impactos foi a Abolição da Escravatura, em 1888, quando toda a mão de obra dos cafezais fugiu tão logo houve o anúncio do fato. Não ficou um escravo sequer na cidade, segundo os registros de época. Tanto a construção da ferrovia quanto a produção de café continuaram, com nova mão de obra, seguindo assim até  a véspera do Natal de 1888, quando foi assentado o último trilho. A inauguração mesmo ocorreu em 1o. de janeiro de 1889, ano da Proclamação da República - sendo essa o segundo revés - que foi uma mudança política que afetaria Bananal de uma maneira negativa. No dia da inauguração, 3 de janeiro de 1889, o mercado do café já apresentava instabilidade para a cidade.
Não tendo atendido a produção de café na sua plenitude, o caminho de ferro acabou transformando-se numa grande obra inútil para uma cidade que já não podia sustentá-la. Disputas políticas fizeram a construção se arrastar e até um engenheiro foi morto, logo depois da inauguração, em emboscada de um grupo político rival.
A viúva, Dona Domiciana e o herdeiro dos Valim, vendo sua fortuna se dissipar no empreendimento, resolveram vender o mesmo para Domingo Moitinho, homem de origem lusitana e de grande fortuna, que arrematou também as fazendas da família. O grande problema foi que a região noroeste do Estado de São Paulo evoluiu na plantação do café em condições muito mais produtivas e Moitinho passou a enfrentar problemas financeiros, hipotecando fazendas, a estação e a ferrovia, hipoteca essa que só foi paga em 1914, pelo filho de Moitinho, que já não podia manter a estrutura em funcionamento. Nessa época o transporte feito era primordialmente da produção do laticínio Lusitano, única indústria da cidade, e da população entre Bananal e Barra Mansa.
   Em 1919, tanto a ferrovia quanto a estação foram entregues ao Governo Federal, e o palacete dos Valim foi entregue ao Governo do Estado, que o transformou numa escola. Os Moitinho nunca foram indenizados pelo governo.

O fim de um grande projeto

Melancolicamente, os moradores da região tiveram que dar adeus ao trem, que nos seus derradeiros dias transportava apenas uma pequena produção de leite do muncípio e algumas dezenas de passageiros, diariamente. A ferrovia funcionou assim até 1963 e foi finalmente desativada em 1o. de junho de 1964, servindo durante algum tempo como ferroviária. No início do século XXI foi completamente fechada e alvo de uma disputa judicial entre a prefeitura e os Correios, ao qual atualmente pertence.
Bananal ainda sofreu um impacto severo novamente quando no início do século XX foi cortada pela Rodovia Rio x São Paulo, que naquela época cortava a cidade e tornou-a passagem obrigatória para os primeiros veículos do país criando um surto de desenvolvimento que desapareceu no dia seguinte a inauguração da Rodovia Presidente Dutra, que passava distante da cidade. Quando essa foi inaugurada, Bananal caiu no esquecimento.

2 comentários:

  1. Quando leio coisas assim fico muito triste;é duro ter que constatar que por esse aí afora existem várias Bananais-cidades que tiveram seu apogeu, entraram em declínio e depois no ostracismo total.Mais triste ainda é saber que os filhos dessas cidades desconhecem seu valor hístórico.Mais do nunca aqui cabe dizer:éita país sem memória, sem educação sem...por quanto tempo vamos continuar assim?!!!

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  2. Arilza, você está certa. A quantidade de cidades que perderam o rumo em certo momento, entraram em decadência e estão aí, cheias de um patrimônio cultural enorme, mas abandonadas à própria sorte é coisa impressionante. Lobato, em Cidades Mortas, deu o tom da conversa, já naquela época. E hoje a gente vê que não melhorou muito, mas pelo menos algumas pessoas vão fazendo o resgate. Vamos em frente, fazendo a nossa parte e não deixando o mundo esquecer que tem história, e muita.

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