Conheci João Rural casualmente, como via de regra acontece por aqui. Trabalhando na área de projetos e montando uma tv institucional, conversei com ele querendo saber mais das suas histórias e fiquei impressionado. Ô povo prá ter história! Com livros publicados sobre culinária regional, muita conversa e uma mão prá lá de boa para a cozinha, o João Rural foi falando mansamente sobre sua história, naquela toada boa de quem não precisa provar nada, e quem quiser que acredite nos causos. Uma das coisas que mais me chamou a atenção é de que existiu um prato típico da região, o tal Virado de Frango Caipira, que foi o hit entre os romeiros de Nossa Senhora de Aparecida por muitos anos.
As histórias são longas, porque carregam consigo o esforço devocional de milhões de pessoas que vieram ao Vale do Paraíba para fazer ou pagar promessas, para buscar a cura de seus males ou dos males de entes queridos, enfim, para hipotecar seu amor à Santa Padroeira do Brasil de corpo inteiro. E para saciar esses corpos, tinha que ser encontrada uma solução que fosse simples, do gosto dos que iam se alimentar, que durasse a jornada, que sustentasse o corpo para que o espírito pudesse usufruir do encontro com a Mãe.
Lá pelos idos de 1940/1950, a estrutura era precária e a própria rodovia não ajudava muito. Os romeiros então vinham em carroceria de caminhão, em bancos de madeira, com uma cobertura de lona por cima de suas cabeças, orando, cantando e pensando em seus problemas. Quando encontravam uma árvore grande, por volta da hora do almoço, de preferência perto de um curso d´água, estacionavam ali e abriam os grandes caldeirões onde vinha acondicionada a comida, e ali mesmo se fartavam de carboidratos e proteínas. Era o que se chamava de "comida com sustânça". Uma pequena sesta e tocavam adiante. A receita, como se pode ver no filme, chama mais para o pirão denso, que permitia que fosse comida com a mão. Hoje existem receitas que são mais suaves.
Ao comer esse Virado de Frango Caipira, você estará viajando no tempo e revivendo um modo de alimentação que sobrevive na zona rural paulista. Eu comi e realmente é muito saboroso, nessa fórmula do João Rural.
Ah, só para terminar. Ouvi de João Rural várias histórias interessantes, mas uma delas me marcou por ser polêmica. Segundo ele, não existe "Comida Mineira". O que existe é a comida do Vale do Paraíba, a culinária caipira, que subiu os contrafortes da Mantiqueira em lombo de burro cargueiro, nas empreitadas tropeiras, e foi ocupando o espaço da culinária pobremente diversificada das regiões por onde passou. As idas e vindas das tropas de carga levaram para os confins das Minas Gerais o gosto pelos pratos que já eram feitios no dia a dia dos paulistas do Vale do Paraíba.
E a expressão "por cima da carne seca", que normalmente quer dizer que o indivíduo está bem de vida, originou-se no fato de que os "patrões" das tropas levavam para seu consumo manta de carne seca, para melhorar o rancho pessoal durante a viagem. Quem tinha posses, levava essa carne, que por sua preciosidade, era colocada na sela, viajando junto a ele. Estar "por cima da carne seca", portanto, era ser o camarada mais importante e rico... veja só você.
Mais parece angu de frango, que eu gosto muito.Vc já provou Nelson?Essas delícias regionais é bom experimentar "in loco" fica com um sabor mais especial.
ResponderExcluirSe eu provei Arilza? Eu comi dois pratos iguais aquele que o presidente do sindicato recebeu das mãos do culinarista. E a estada do João Rural em Aparecida foi de 72 horas, e ele cozinhou todos os dias. Imagina só a esbórnia gastronômica que rolou!
ResponderExcluirMuito bom. Estou com fome agora depois de ver. Vou ver por aqui se meu cozinheiro de prontidão acerta uma receita dessas. Abração para você.
ResponderExcluirAdorei e vou fazer. Se o Nelson gostou deve ser demais.
ResponderExcluirManda Brasa Lauro, bota o povo para cozinhar que vem mais receita por aí. Estou marcando uma ida a uma Costelaria que tem por aqui, que começa a assar as costelas no dia anterior para garantir a maciez. Vou mostrar o processo. Abração.
ResponderExcluirBeta, faz mesmo que com o seu tempero o Virado de Frango Caipira, vai virar o Virado de Frango dos Deuses (sem puxasaquismo heheheh). Estou aguardando para viajar para o Rio assim que começar a cozinhar. Beijos.
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