quarta-feira, 27 de julho de 2011

Um pé em cada tempo



Viajando por essas bandas valeparaibanas, senti a inspiração para o texto que estou escrevendo, e que vou dividir em duas partes. A primeira parte, fala do Século XVIII, do Tropeirismo, da cultura tropeira, sua comida, seus trajes e sua vitalidade, que transcende o fato de a logística e os modais terem sido substituídos ao longo do tempo.
A segunda parte, fala de uma visita técnica que fiz e que acabou gerando mais duas outras, a uma movelaria que trabalha sem carpinteiros aqui em Lorena (SP), ao lado da cidade onde moro, inaugurada a menos de um ano por dois empresários visionários (visionário, é importante ressaltar, é aquele que tem visão), que encontraram um nicho de atuação altamente competitivo, exigindo grande dose de tecnologia e conhecimento técnico-científico, mas com possibilidades infinitas.
E vamos então à história do tropeirismo na região do Vale do Paraíba - na verdade uma das muitas que vou contar por aqui.
Depois de um século explorando as riquezas brasileiras em regiões litorâneas, os portugueses avançam para o interior em virtude das notícias que surgiam quanto a existência de enormes volumes de minerais preciosos existentes ali. Do outro lado, os espanhóis faziam o mesmo caminho, interiorizando as ações e tendo ótimos resultados na extração de pedras preciosas, ouro, prata, estanho, etc. O esforço muitas vezes era perdido, tendo em conta os ataques piratas que espreitavam ao longo do caminho ou mesmo as mudanças do tempo, que provocavam naufrágios. Mas o trabalho continuou, demandando cada vez mais estratégia e força para o transporte de cargas paulatinamente maiores. Os espanhóis passaram a trazer nos porões de seus navios burros e mulas, para a execução desse trabalho, dando início ao Tropeirismo Latino. E aí vem uma curiosidade.
Os muares são animais  híbridos, resultantes do cruzamento do jumento com a égua, e são estéreis. Por essa razão, a “reserva de mercado” da produção de jumentos e éguas continuaria sendo mantida na Europa,  vindo para a América Latina apenas o produto híbrido, para prestar serviços de transporte no grande e acidentado trecho da Cordilheira dos Andes. Mas o crescimento de negócios acabou provocando a necessidade de implantação de um criatório de muares na América Latina.
     No trecho compreendido pelos pampas, nasce a região missioneira que se mostra ideal para os criatórios, e a parceria entre jesuitas, e indios guarani frutifica. O conjunto formado pela topografia, a docilidade dos animais e a dedicação e seriedade de padres e índios permite o sucesso da criação. Dessa região, os animais eram encaminhados para a cidade de Salto da Argentina - ao pé da cordilheira - guiados pelos “tropeiros” que os negociavam em feiras (as primeiras da América).
     Esses animais fizeram o transporte de cargas tornar-se viável, viajando por regiões serranas rodeadas de abismos e florestas, montanhas de solo árido, dispondo de pouca alimentação e enfrentando nevascas, ventanias e a hostilidade do meio.
     Vou continuar no próximo artigo, por ser o assunto muito grande e demandando calma para apresentar as coisas de uma maneira compreensível. Afinal de contas, estamos falando da saga de nossos ancestrais, e isso exige tranquilidade e respeito.
E vamos em frente.

4 comentários:

  1. Gostei muito mas fiquei querendo mais. Muito pouco. E para deixar o leitor esperando?

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  2. Essas histórias são maravilhosas e quase nada se sabe sobre elas.Que bom que vc está falando delas.Essa semana vi um documentário na TV Brasil " A estrada Real da Cachaça" do Pedro Urano.Um tanto longo mas muito interessante, e num desses caminhos estava Guaratinguetá até chegar em Paraty.Não sei se tem registros aí em Guará dessa época.Mas vale pesquisar. Bjos

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  3. Arilza, o que você falou é um fato. Quase ninguém sabe nada, e no entanto foi a história do Brasil durante muito tempo. Num país da dimensão deste, imagine só o que foi tentar reunir tudo para obter resultado comercial! Estou montando uma palestra para a área de consultoria baseada nessa experiência empreendedora que requeria muito mais do que capital: exigia disposição para arriscar a própria vida. Quanto ao documentário, acho que o autor reuniu dois valores daqui: a cachaça, produzida com excelência, e a Estrada Real, que é tão importante que vou dedicar um capítulo inteiro a ela. E vamos em frente.

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  4. Beta, calma que o material é enorme e vou postando aos poucos senão a gente entope todo mundo com muita informação. Beijos

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