quarta-feira, 27 de julho de 2011
Tropa, tropeiro, tropeirismo
Quando as primeiras minas de ouro foram descobertas, nas Minas Gerais, o pressentimento de que ali havia fortuna a ser ganha gerou uma corrida desordenada que evidentemente gerou escassez de alimentos. Corria então o ano de 1693 e as condições de subsistência eram precárias, bem como o sistema de transportes. Com essas condições especiais, iniciou-se o chamado Ciclo do Ouro e com ele o fenômeno do Tropeirismo, atividade que determinou o povoamento desde o extremo sul até o norte do Brasil.
Nos dizeres de Ocílio Ferraz, em seu livro "Viagens de Tropeiros entre Serras" (Antonio Bellini Editora e Cultura, 2002 - patrocínio BicBanco - Edição Especial), o tropeirismo "uniu territórios, conduziu o gado, escoou a produção econômica. Criou a identidade brasileira, fruto da miscigenação de raças e culturas, crenças e tradições -, entre indígenas, africanos e europeus".
Naquela época também era difícil conseguir apoio governamental, e a iniciativa empreendedora da homens como o coronel português Cristóvão Pereira de Abreu mudava o rumo das coisas para melhor. Em 1773, ele traçou e percorreu, com sua própria tropa, aproximadamente 1.500km do caminho que passaria a ser conhecido como Caminho do Viamão, que saia dos Campos de Viamão e ligava Curitiba a Sorocaba. Nesse trajeto,a tropa construiu mais de 200 pontes, levou mais de 2.000 animais e fez de Sorocaba mais do que uma parada obrigatória para descanso de homens e animais. Na verdade, transformou Sorocaba no principal centro mercador de tropas do Estado de São Paulo.
O caminho integrou o extremo sul ao centro do Brasil. Foi por mais de dois séculos, a grande estrada do Brasil nos tempos coloniais, e durante anos o país dependeu economicamente do Caminho do Viamão. Enriqueceram gaúchos, que se dedicavam à criação, e os grandes homens de tropas, que por vezes iniciavam com dois ou três animais e, ao longo do tempo, acabavam por montar sua própria tropa com mais de 250 mulas, tornando-se ilustres e abastados donos de terras.
No entanto, toda a cadeia produtiva envolvida ganhava com a passagem das tropas cargueiras, tendo em conta que os ranchos iam surgindo a beira do caminho, formando comércios que davam origem a vilas e povoados, pois era preciso alimentar tanto os animais quanto os tropeiros.
Um dos fatos interessantes que coletei no livro mencionado acima é o seguinte, nas palavras do próprio autor:
" Para o atento observador, as cidades do Vale não se distanciam entre si mais que 24km (medidos em léguas, onde cada légua equivalia a 6 km), o que resulta em um dia de viagem com a tropa".
Hoje, isso é uma vantagem competitiva para muitas cidades, mas a maioria das pessoas não tem idéia do porque dessa distância e a origem está no tropeirismo. Cada cidade era um ponto de pouso desses heróicos cargueiros, que transportavam de um tudo entre o litoral e o interior, entre o Vale do Paraíba e o Sul de Minas, conectando-se com outras tropas de jornada ainda mais longínqua.
Continuamos a seguir.
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